Gustavo Krause

Gustavo Krause

Livre Pensar

Perfil: Professor Titular da Cadeira de Legislação Tributaria, é ex-ministro de Estado do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, no Governo Fernando Henrique, e da fazenda no Governo Itamar Franco, além de já ter ocupado diversos cargos públicos em Pernambuco, onde já foi prefeito da Capital e Governador do Estado.

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O DIALETO

Gustavo Krause, | seg, 30/03/2015 - 09:41
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— Pessoal, Tota bateu a cassuleta! Ar de espanto. Depois, uma brisa de tristeza atravessou o magote de camumbembe que, todo santo sábado, se reúne em torno da marvada, comes e bebes para celebrar velhas amizades e, o que éde lei, fuxicar.

 

Justo naquele dia, foi feita a aposta: pagaria a conta quem no bate-papo deixasse de dizer, pelo menos, uma palavra do dialeto pernambuquês/nordestinês.

(Dialeto, ensinam os bam-bam-bam no assunto, é uma variação do idioma, jeito de falar de uma região, grupos sociais, profissionais, etários, com palavras próprias, mas que são entendidas por quem fala e por quem ouve. Logo, se no mesmo país a linguagem não éentendida, éo caso de um país com mais de uma língua).

— Ô Vadinho  atalhou Didi, o gigante de Tambaba, apelido dado em homenagem aos seus dotes anatômicos lá vem tu que, além de fuxiqueiro, só traz aperreio.

Aí Beto, Boca de Caçapa, apressou-se em evitar a arenga: - Tava na cara. Tota tinha tudo quanto era quizila: espinhela caída, lombriga, fraqueza de sangue e dos nervos, andava piongo, xoxo, além de zambeta, os cambito fino e tomava, todo dia, uma tuia de cachete

Também – emendou Lu, vulgo azia, vencedor do troféu, O Cabuloso ele aguentou, 40 anos, Jovita, um estrupício, barraqueira, tinha cabelo na venta, sofria de gastura, xanha na canela que virava pereba, tome a mardita e aí ela ficava com a bixiga lixa no couro. Faltou cabra arrochado que lhe desse um cocorote. Tota era uma alma penada. Deus o tenha.

Nelsinho Cabeção, conciliador, ponderou: Lá vem tu com brabeza. Dona Jovita tava longe de ser uma Xamboquiera. Mulher decente. Demorou dez anos pra emprenhar. Pensavam que era Maninha. Na mangação, chamavam Tota de Gala Rala. Nunca teve beliscada, teúda e manteúda que, quando sai da zona, passa a proceder. Jovitadeu dois bruguelos a Tota: Zédo Pão e Maria de Jesus, os nomes são paga de promessa. O macho tátomando conta da bodegasortida de brebote e catrevagem. Um galalau, pirangueiro, mas, orgulhoso, estufa o peito,não sou xexeiro. Se faz de abilolado, pamonha, mas é nócego no negócio, só entra de cum força nas parada. Diferente do pai, é raparigueiro, não pode ver quenga, fica amostrado, cheio de munganga, pantim e com trancelim no pescoço. Nada de amigação, nem casamento. É gasto e apoquentação, diz ele.

Didi, o gigante de Tambaba, reservou-se na prosa pra falar de Maria de Jesus. – Cruz credo, derna de pequena era virada no moi de coentro; foi se pondo mocinha espevitada, empinada pra frente e arrebitada pra trás; virou mulher, ficou quartuda e por onde passava deixava os cabra zaroio. Na dança, era xumbregação medonha. Dona Jovita morria de medo que ele ficasse falada e no caritó. Maria de Jesus gosta do sarro, mas é cabaço; aos vinte e cinco anos deu o primeiro tiro na macaca. Foi um desespero. Dona Jovita haja fazer promessa e simpatia pra Santo Antonio. E Maria de Jesus nemmode coisa. 

Nessa lengalenga, teve um porém: foi inaugurada uma Upa em Casa Amarela, vizinha da casa do finado Tota. Por láchegou um doutor de nome bonito: Roberto Aarão. Bem-apessoado, muito lorde, instruído, clínico e urologista de dedos afiados. Jovita, que vivia enturida de achaque, marcou consulta. Um olho no doutor e já pensando em cortar-jaca para o genro dos sonhos. Foi uma hora de consulta. Nem parecia paciente do SUSpiro derradeiro.

Dia seguinte... Aí Toinho Bocão atravessou-se com a voz estridente de professor alopradoTô por dentro. Foi meu aluno. Dona Jovita levou bolo de bacia com goiabada feita em casa. Feitiço puro. Convidou o tampa da medicina pro lanchinho lá em casa. Maria de Jesus, A sobremesa, tava todemperiquitada. O casório tá marcado.

Ôxe, conversa chata arretada! Berrou Pitta e virou-se pra mim com um tom sarcástico, ô ex-quase tudo, meu apelido, como vai o furdunço da política? Acabou o espaço e priu!

PS. Este artigo é uma singela homenagem a todos os poetas, pesquisadores, cordelistas, repentistas, cantadores e contadores de causos” representados nas pessoas de Zelito Nunes e Jessier Quirino.

Carnaval, água e os possuídos

Gustavo Krause, | ter, 24/02/2015 - 12:00
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Cada povo tem um senso de humor peculiar. Uma das peculiaridades do humor brasileiro é rir e fazer com que as pessoas riam do próprio infortúnio.

O Brasil sofre duas longas e históricas secas: a seca da vergonha e a seca d´água,  a estiagem que pelas bandas do sertão (mais amplamente, o semiárido) fez morada desde sempre  e matou de fome milhões de nordestinos. A solução da seca da vergonha foi proposta por Capistrano de Abreu pela mais sintética constituição do universo: Artigo único: Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara. E aíseríamos felizes para sempre.

Do espaço sideral, a exclamação A terra éazul!" foi uma ilusão de ótica do astronauta Yuri Gagarin: é quase tudo água salgada. E como se não bastasse, o homo sapiens tratou de maltratar a Terra, planeta água, uma das mais belas construções poéticas do grande Guilherme Arantes.

Pois bem, a seca chegou ao sudeste brasileiro e de forma devastadora em São Paulo, exatamente para onde fugiam da desdita, humilhados, que nem a ave migratória, a arribação que dánome ao romance de Antonio Sales (década de trinta) e foi fonte inspiração para a pungente, dolorida, sofrida obra do cancioneiro nordestino.

Nesta vasta e bela produção artística não tem espaço para o humor. Basta para verter lágrimas sobreviventes do sol ardente, inclemente, ouvir Triste Partidade Gonzaga, canto que mistura a dor lancinante da desesperança e a contrita prece de uma féinabalável em Deus. E se a gente ouve o crepitar da fogueira na metáfora a terra arder, bate um sentimento de tristeza e impotência transformadas por Gonzaga e Humberto Teixeira, na segunda música mais marcante do século XX ao lado de Carinhoso, de acordo com o julgamento dos imortais da ABL em 1997.

Se o que dáprárir, dápráchorar na conformação do ethos brasileiro, o humor do Jeca-Tatu, Macunaíma, Pedro Malasartes, Policarpo Quaresma nos transporta para a anarco-carnavalização do Reino de Momo. Aíos compositores das marchinhas brincam de humor/ironia com a água (ou a falta dela).

Aívão alguns exemplos: AllahLáÔ”, Cachaça(vocêpensa que cachaça éágua..), Saca-Rolha(as águas vão rolar...), Chuva, suor e cerveja. Estas e outras marchinhas de idêntica temática fazem parte dos carnavais passados. Porém, a crise hídricapaulistana levou Joaquim Candeias Junior a aproveitar Lata d´água na cabeçae concluir que Maria sem eira nem beiratermina na ressaca da Cantareirae, numa toada ainda mais irreverente, o compositor Emerson Boy do Jegue Elétrico, aproveitando o vocabulário da moda volume morto, manda o pessoal ir pro Uruguai/brincar com o Mujica/látem meu remédio/vou sair do tédio. Dando um tapinha, certamente.

Deixei por fim a marchinha Tomara que chova(composta por Romeu Gentil, cantada pela notável Emilinha Borba, 1950) que dizia: Tomara que chova/três dias sem parar/a minha grande mágoa/éláem casa não ter água/eu preciso me lavar.

Esta marcha me remete a uma história que presenciei na fazenda Pirauá, propriedade de minha família onde passava parte das férias escolares. Com curiosidade de adolescente ouvia as conversas de meu pai e tios com a matutada. Tinha um morador, chamado Neco de dona Menininha, rezadeira e parteira. Ele, um cara parrudo, não enjeitava trabalho, nem na roça, nem no curral, ordenhando e, no pasto, vaquejando. Tinha vinte cinco anos e casou com Eulina, cabocla brejeira e boa parideira: cinco anos de casamento cinco bruguelos. Por coincidência, conversavam sobre aquele ano que foi  de seca braba. No meio da conversa, sob a sombra de um Ficus exuberante que aplacava o mormaço, meu pai perguntou Neco, e essa danada da seca? Nunca vi nada parecido.  Neco, prontamente, concordou: Dotô, por Deus a fé, táfartando água pra tudo. Onte, Eulina, adespois de butá os mininoprádrumir, preguntô, o Neco tu vai pricisá deu hoje, a água tápôca, mai si tu pricisar, aíeu lavo os meu pissuídos. Eulina fez bom uso da água, tanto que no ano seguinte a gente conheceu o sexto rebento de Neco.

 

A Validade de um Ministro da Fazenda

Gustavo Krause, | qui, 08/01/2015 - 13:15
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Em 1994, cumpria o último ano do mandato de deputado federal quando fui convidado para participar de encontro com uma comitiva de deputados americanos. A mim, me caberia fazer uma explanação sobre a conjuntura brasileira.

De plano, alertei os ilustres visitantes para as peculiaridades do Brasil e sugeri: “Éimportante que os senhores arquivem os mecanismos tradicionais de análise. Eles não se aplicam ao Brasil. Justifiquei: O Brasil não tem moeda: tem um nome. Na prática,  o que existe éuma cumplicidade aritmética entre os agentes econômicos chamada correção monetária. O Brasil não tem orçamento. O mais importante instrumento de planejamento governamental que traduz financeiramente as prioridades políticas de um país e protege o cidadão da rapinagem dos poderosos, éuma ficção. A Federação é uma cópia canhestra do federalismo dos senhores. Aqui, predomina o centralismo que éo avesso da gênese federativa: a descentralização do poder.

Aqueles parlamentares, nascidos e criados na tradição anglo-saxônica, para quem Moeda, Orçamento e Federação são os pilares de uma nação civilizada, estavam zonzos.

Piorou quando ilustrei minha exposição com números impressionantes: De 1980 a 1994, o Brasil teve 15 Ministros da Fazenda, 14 Presidentes de Banco Central, 6 planos de estabilização, inclusive o confisco, 6 moedas, 13 políticas salariais, 17 regras de câmbio, 3 tablitas, 53 medidas de controle de preços, 720% de inflação média anual.

Os gringos se entreolharam perplexosàespera de uma conclusão catastrófica. E aípara surpresa deles, concluí: Apesar disso, senhores, o país funciona, a bem da verdade, precariamente, produzindo aleijões graves com o risco de uma ruptura do tecido social. A nossa esperança éo Plano Real em curso(na época, a URV engolia a moeda podre o que foi difícil explicar).

O Plano Real revolucionouo país, demolindo a perversa cultura inflacionária e construindo uma saudável cultura de estabilidade, a tal ponto que seus ferrenhos adversários, ao chegar ao poder, proscreveram exóticas e supersticiosas fórmulas  econômicas no compromisso lastreado pelaCarta ao Brasileiros, subscrita pelo candidato Lula.

Na sequência histórica, ficou evidente que os governos petistas não estavam preparados para enfrentar crises. E mais, reinventada no governo Dilma, uma tal Nova Matriz Macroeconômica desmantelou a economia. A contabilidade criativa tinha pernas curtas. A contabilidade real écruel. E agora? Lula escreveu a Carta; Dilma teve de engolir a banca e seus rebentosneoliberais.

A questão é: Dilma vai digerir ou vomitar os ministros siameses, Fazenda e  Planejamento?

Duas circunstâncias respondem pelo tempo de validade dos ministros da área econômica: conjuntura estável e favorável; confiança e identidade político-ideológico com o Presidente da República.

Não me parece que seja o caso. Os tempos são bicudos. A conjuntura,  adversa. O enfrentamento, impopular. Tudo que um chefe de governo detesta.

De outra parte, a relação chefe/subordinados não dáliga. Diz-se que Levy votou em Aécio. Suprema ironia. Ambos, os ministros, são mãos de tesoura. De perfil alto. Não têm nada a ver com o antecessor, Mântega, cegamente obediente, que estava mais para o otimismo tolo de Cândido, discípulo de Pangloss, personagens de Voltaire. A rigor, Joaquim Levy e Nelson Barbosa fazem parte do time dos vilões, os banqueiros, que surrupiaram a comida dos pobres na obra-prima de João Santana que fez o diabo e arrebatou o Oscar da sacanagem eleitoral.

De logo, deixo claro: desejo ardentemente que o governo tire o pais do atoleiro que ele mesmo botou. Se der errado, a vítima éo Brasil.

Infelizmente, o cartão amarelo mostrado a Nelson Barbosa por conta da declaração (correta) do Ministro sobre a indexação do salário mínimo éum péssimo sinal e que me lembra a experiência vivida com Itamar no meu primeiro dia trabalho como Ministro da Fazenda. Crise política brutal; inflação estratosférica. Corrigi o preço da gasolina, medida correta. O Presidente não gostou.  Botou a boca no trombone. Trocamos um telefonema civilizado, porém, tenso. Expliquei a razão da medida. Após o que ouvi a pergunta: dápra revogar a portaria? Infelizmente, não. Estava engatilhado o complemento se a ordem fosse dada: o senhor revoga a portaria e o ministro. Não foi necessário. Teria passado para história como Krause, o brevíssimo.

Levy e Barbosa, outros batráquios virão. Preparem a goela e o estômago. Jávi esse filme. 

Avassalador

Gustavo Krause, | sex, 21/11/2014 - 11:29
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Segunda-feira, 16/11/14, em entrevista coletiva, a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, declarou o seguinte: Temos contratos com a SBM de operação de oito FSOPS (navios-plataformas) com performance acima da média. Não vamos interromper contratos com ela nem com outras empreiteiras que estão trabalhando conosco atéque tenhamos informações que sejam tão avassaladoras assim que justifiquem que nós encerremos os contratos.

 

A declaração merece detida análise.

 

Vamos a ela: (a) a Sra. Graça Foster fez esta declaração ao admitir que sabia do caso de suborno, embora, em junho, quando prestou depoimento na CPI Mista da Petrobras, mencionou, apenas, possíveis erros de um trabalho técnico; (b) a SBM Offshore, empresa holandesa, informou, em maio, que houve pagamento de propinas a funcionários da Petrobras; (c) a referida empresa celebrou um acordo com o Ministério Público holandês e comprometeu-se a pagar 240 milhões de dólares para encerrar as investigações; (d) no entanto, segundo a presidente da empresa, a SBM não participaráde nenhuma licitaçãoe, quanto aos contratos em curso, eles serão mantidos a não ser que informações tão avassaladoras assim que justifiquem que nós encerremos os contratos.

 

Inacreditável, mas real. Avassaladoré, convenhamos, um adjetivo assustador.  Os adjetivos passam, e os substantivos ficamensinava o gênio da raça, Machado de Assis. Particularmente, entre dois adjetivos escolho um substantivo. No caso, o substantivo ésuborno, corrupção, escândalo que valem por si sós, independente dos qualificativos.

 

Neste sentido, a Sra. Foster, ao adjetivar, quis revelar as proporções gigantescas da pilhagem que sofreu a Petrobras. Mais que uma grande empresa, a Petrobras éum verdadeiro símbolo do nosso progresso e da nossa capacidade de explorar, ainda hoje, a mais cobiçada das fontes energéticas, o petróleo; uma obra que mobilizou forças nacionalistas bem intencionadas; obra construída com o suor de milhares de trabalhadores decentes, dedicados, competentes, afirmando, perante o mundo, um valioso patrimônio de saberes tecnológicos e de possibilidades econômicas. Hoje, anda olhando pro chão, triste, envergonhada, enfraquecida.

 

Com efeito, testei o sentimento das pessoas, indagando o que entendiam por avassalador e houve uma coincidência na associação de ideias: um tsunami. Ou seja, a percepção desviou do sentido etimológico de avassalador, que avassala, que torna vassalo; desviou, inclusive, do sentido figurado segundo o qual avassalar é dominar, submeter, cativar, seduzir; vai, além da construção poética de Lenine, na música, Aquilo que dáno coração/E nos joga nessa sinuca/que faz perder o ar e a razão/E arrepia o pelo da nuca/Aquilo reage em cadeia/Incendeia o corpo todo/Faísca, risca, trisca, arrodeia/Dispara o tiro certeiro/Avassalador/Chega sem avisar/Toma de assalto, atropela.."

 

A rigor, a palavra conota destruição. E, de fato,o que estáem jogo éum conflito entre as forças destruidoras da corrupção e a resistência das nossas instituições, por consequência, o êxito ou o fracasso de um projeto de nação.

 

Infelizmente, o projeto de poder, colocado em prática pelo conjunto de forças políticas hegemônicas, tem como estratégia o aparelhamento do Estado, o discurso e a ação populista de sedução das massas, a cooptação dos movimentos sociais e da base parlamentar mediante o argumento infalível do dinheiro.

 

Em paralelo, a dialética dos donos do poder obedece a uma fórmula simples e eficaz: eu faço, mas quem não faz?, patifaria com patifaria se anulam, e mais, abre-se a vala comum, com a ajuda o sentimento de desencanto com os políticos, e... é tudo igual. As mídias disponíveis e subservientes se encarregamde bombardear a consciência dos cidadãos.

 

Tudo éfeito em nome de uma grande causa. Os fins justificam e legitimam os meios: roubaréexpropriar; matar éjustiçar; mentir? legal, desde que os resultados apareçam. Afinal de contas, a pureza dos propósitos estácontida no determinismo da marcha da história, na superioridade ética do novo homeme na utopia do novo mundoonde jorraráleite e mel.

 

Se vai jorrar leite e mel, duvido. Émais provável que, ao se enfiar o dedo em qualquer pontodo amplo espectro dos malfeitos (detestável eufemismo para a grossa bandalheira), vai jorrar um líquido escuro e viscoso.

Não épetróleo. Élama mesmo. Avassaladora.

 

Troféu “Seu Lunga”

Gustavo Krause, | qui, 06/11/2014 - 18:21
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Um dos meus dez fieis leitores, ou seja, 10% deste vasto universo, me cobrou: “Como écara? Não escreve mais?.

De fato, resolvi dar um tempo diante do bate-boca eleitoral e do furor analítico que tomaram conta da mente e do coração dos brasileiros. Afinal, nada acrescentaria ao acalorado debate, não poucas vezes, contaminado pelo veneno da ofensa.

Enquanto a pauleira corria solta, não sei por quê, uma súbita associação de ideias me fez refletir sobre o idiota. Talvez, uma autoanálise que me denunciava como o próprio idiota.

Que tipo de idiota? Eis uma questão pertinente (no meu caso, deixo o enquadramento a critério do leitor).

Com efeito, a palavra idiota, desgarrada da origem grega (pessoa leiga, o homem privado face ao homem público) e do diagnóstico psiquiátrico, tem dois significados.

De um lado, o significado inspirado no personagem central da obra canônica de Dostoiévski, O Idiota, na qual o príncipe Michkin é criatura benevolente, generosa, ingênua, portadora de pureza e de compaixão reveladoras de um ser inadaptado ao mundo perverso; de outro lado, estáo significado corrente que empresta ao idiota uma cesta de sinônimos, entre os quais, estão: cretino, tolo, pateta, palerma, parvo, abobalhado, abilolado, energúmeno, estúpido, leso, mentecapto, banana, bocó, desmiolado, pato, mané, etc.., etc..

Ora, diante desta amplitude, quem não cometeu idiotices, atire o último sinônimo! Cuidado, épecado, diz a Bíblia, atribuir ao próximo a pecha de idiota.

Assim sendo, épreciso identificar tipos: existe o idiota ocasional e o idiota fundamental; o idiota, pessoa física, e o idiota coletivo, o maria-vai-com-as-outras, a massa, o rebanho, a manada, a multidão, o consumidor, o torcedor, o eleitor. Todos, vulneráveis àmanipulação.

Existem os inofensivos e os de alta periculosidade, estes, em geral, ativos, influentes, imodestos. Aliás, alguém jádisse que, atualmente, o idiota perdeu a modéstiao queé um corolário da constatação genial de Nelson Rodrigues: O grande acontecimento dos nossos dias foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota.

E o que tem Seu Lungaa ver com isso? Seu Lunga, Joaquim dos Santos Rodrigues, cearense, residente em Juazeiro do Norte, estabelecido no ramo do comércio de sucata, tornou-se conhecido como o homem mais ignorante do país, rude, grosso que nem papel de embrulhar prego e, sobretudo, implacável combatente da idiotice.

Seu Lunga fica arretado quando contam suas histórias. Diz que émentira. Não adianta. Virou verdade. São tiradas saborosas. Aívão algumas: Seu Lunga estava coçando a cabeça por cima do chapéu. Aíum cara perguntou: Seu Lunga, por que não tira o chapéu?. Seu Lunga, rápido no gatilho: Vocêtira a calça pra coçar a bunda?. Seu Lunga estava sentado noônibus e, ao lado, o lugar vago, aío cara perguntou: Seu Lunga tem alguém sentado do seu lado?. Se tem, tô cego. Num tô vendo. Seu Lunga ia saindo de casa e deu de cara com o vizinho. Bom dia, Seu Lunga, para onde vai tão cedo. Vou pro enterro do Chico. E Chico morreu. Não.  A família se reuniu e vai enterrar Chico vivo mesmo. Seu Lunga levou o carro pra oficina. O mecânico perguntou: Seu Lunga esse carro ronca? Sei não. Ele dorme na garage. Um amigo encontrou Seu Lunga:  Nunca mais vi o sinhô. Por onde o sinhô anda?. Pelo chão mesmo. Ainda não aprendi a voar.

No dia da eleição, Seu Lunga, abusadíssimo, foi votar. A jovem mesária perguntou: Veio votar, Seu Lunga?. Não. Vim doar sangue para o bem do Brasil.

Por essas e outras, foi instituído o troféu Seu Lunga, um prêmio para as pessoas que, a exemplo dele, contribuem para reduzir a Taxa de Idiotice Nacional TIN. Conte sua história e envie para o seguinte endereço: bradoretumbante@giganteadormecido.com

E fique tranquilo. A Comissão Espertobras julgará, com decência e isenção, os casos apresentados.            

Getúlio, o homem, o mito

Gustavo Krause, | seg, 13/10/2014 - 09:20
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Concluí a leitura da monumental trilogia biográfica de Getúlio Vargas de autoria do jornalista/escritor Lira Neto.

Sobre o assunto, escrevi dois artigos: “Uma biografia de respeito” e “As duas paixões de Getúlio” que me custou um esforço enorme de concisão. Afinal, os três volumes totalizam 1374 páginas.

Outra dificuldade, quase insuperável, é definir o personagem. No entanto, o autor propõe um critério de avaliação: “Por certo o melhor caminho para compreendê-lo, em perspectiva histórica, não é o da devoção sincera ou da negação irrestrita”. 

Entre adoração e repúdio, é possível perceber o homem, o mito e tentar decifrar o que é real e o que é imaginário. Convenhamos que, ainda assim, é uma tarefa praticamente inglória, principalmente, se considerarmos que a teoria política identifica no mito um tipo de “conhecimento” extra-racional em que, “O mito é o nada que é tudo” (Fernando Pessoa no poema “Ulisses”).

Com efeito, a cultura política brasileira é um campo fértil para criar e idolatrar seres demiúrgicos.

A leitura do terceiro volume dá o retoque final (1945-1954) ao retrato da política brasileira: instituições frágeis, radicalismo exacerbado, vícios históricos e sociológicos em nada republicanos e, ao mesmo tempo, sofrendo as dores do parto da modernização econômica do pós-guerra.

Neste quadro, o ditador deposto, recluso na modesta fazenda de Santos Reis, ressurge na aurora democrática da eleição presidencial de 1945, administrando o silêncio, guiado pela astúcia e, como a legislação da época permitia, foi eleito senador por três estados (São Paulo, Minas e Distrito Federal), deputado federal por seis estados e, de quebra, teve influência decisiva ao apoiar Dutra, seu algoz, que derrotou o favorito Eduardo Gomes. Bastou um manifesto alguns dias antes da eleição, pleito em que Vargas teve 1,1 milhão de votos.

Este foi o ponto de partida para o retorno ao Catete. Caminho pontilhado de lances e manobras com tintas de realismo fantástico que culminou com a chancela de 3,8 milhões de votos dos filhos do “pai dos pobres” e dos trabalhadores alforriados pela CLT, a lei trabalhista, inspirada da legislação do fascismo italiano.

A engenharia política que resultou na candidatura de Getúlio ratifica a associação entre estratégia e destino. Dado como morto; objeto de uma oposição implacável, capitaneada pela UDN; alvo de uma retórica virulenta de Lacerda e da então “banda de música” dos jovens udenistas, Getúlio protegeu-se dos holofotes, falou o necessário, licenciou-se do Senado e costurou alianças impensáveis a exemplo da união com Ademar de Barros, um precursor dos aloprados e do roubo em larga escala, escancaradamente, definido por slogan cínico que divertia o, então governador de São Paulo: “rouba, mas faz”.

Em favor de Getúlio, contava o desgoverno de Dutra, a personificação da mediocridade, temperada pelo desequilíbrio das contas públicas, inflação alta e economia estagnada.

Para abreviar a longa narrativa: a consagração eleitoral encontrou Getúlio com evidentes traços de decadência física. E mal sabia ele que a nascente do “mar de lama” brotou no círculo íntimo e infectou os ventos da esperança.

No fatídico agosto, quando o filho caçula Maneco confessou que vendeu uma fazenda ao chefe da guarda, Gregório Fortunato, por 1,3 milhões em moeda atual, um Getúlio, profundamente abalado disse a Oswaldo Aranha: “Oswaldo está configurado. Debaixo do Catete há um mar de lama”.

O atentado da Toneleros, tramado por Gregório, vitimou o Major Vaz e atingiu Getúlio. A latente ameaça militar reacendeu as inclinações golpistas. Getúlio não vacilou: “Do Catete, somente saio morto”.

A CPI sobre a Última Hora de Wainer ferveu no Congresso. A conjuntura tornou-se insuportável. A reunião ministerial da madrugada de 24 de Agosto foi uma cena típica de tragédia grega. Tancredo Neves, conciliador por vocação, propôs a resistência; a filha querida e conselheira de todas as horas, Alzira, foi ouvida em silêncio constrangedor pelos ministros, espantados com a conclamação à resistência. Feriu brios. Era a filha. A fera. Ferida.

A solução da licença, aparentemente, aceita por Getúlio, durou o tempo em que chegou o ultimato dos quartéis: deposição. Getúlio cumpriu sua última promessa e saiu da vida para entrar na história.

Esculpir o mito em carne e osso significa reconhecer em Getúlio: o déspota (esclarecido?), doutrinariamente positivista e autoritário com profundo desprezo pela democracia representativa; o outro lado da moeda está na modernização conservadora do país que empreendeu (Petrobras, Bndes, BNB, CSN, Eletrobras, CLT).

Entre o homem e o mito, prossegue o julgamento do tribunal da história.

As Mulheres do Nazismo

Gustavo Krause, | qui, 07/08/2014 - 17:17
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Este assunto foi tratado com a perspicácia e a competência habituais de Fernando Antonio Gonçalves no artigo Mulheres do III Reich (20.06.14), inspirado na obra de Wendy Lower, Mulheres do Nazismo, consultora do Memorial do Holocausto. A estarrecedora narrativa consumiu 425 páginas, complementada por mais 170 que contém 399 fontes de pesquisa e 25 ilustrações. Certamente, não caberia voltar àmatéria. No entanto, o que ficou remoendo o meu juízo e me encorajou a tratar da matéria foi o próprio Fernando que conclui o artigo assim: As memórias jamais deverão ser resvaladas para o baúdo esquecimento. Pois, assim procedendo, proporcionam o surgimento de novas ideologias que menosprezam a dignidade dos seres humanos.

O final do artigo mexeu em sentimentos humanitários e, naturalmente, me fez sentir o calor do sangue da ascendência e da descendência judia.

De outra parte, a revelação dos algozes nazifascista recaiu sobre um personagem, a mulher, atéentão, praticamente ignorado pelos horrores da crueldade, do massacre e do autêntico genocídio praticado pelos nazistas. Intrigante! A mulher, mãe, a quem a perpetuação da espécie deve a vida dividida no paraíso uterino; a quem a sobrevivência do ser desprotegidoénutrida pelo leite e aconchego do seio materno, enfim, a mulher que, por força da dominação preconceituosa do homem, sempre desempenhou um papel secundário na vida social, assumiu a tarefa de cúmplice e perpetradoras da extinção dos inimigosdo Reich (500 mil envolvidas).

De fato, no primeiro momento, o texto intriga; em seguida, espanta; por fim, a leitura do livro faz compreender os acontecimentos: o veneno ideológico inoculado na formação da sociedade alemã, tendo como pilares a superioridade da raça ariana (definindo os inimigos a serem eliminados) e na doutrina do espaço vital(o lebensraum, a base do expansionismo imperialista e totalitário), geraram monstros que, na corajosa e insuperável visão de Hannah Arendt, agiam sob a serena banalidade do mal, amparada pela lei de Ninguémque se tornou responsabilidade de ninguémno tribunal pós-guerra.

Em relação às mulheres, três crenças foram inoculadas em doses maciças: (a) aceitar irrestritamente a superioridade masculina; (b) emancipar a mulher da emancipação femininacontraditando a suposta igualdade de gênero pregada pelo bolchevismo inimigo figadal do movimento nazista; (c) procriar na maior escala possível a descendência alemã(mães com mais de quatro filhos eram agraciadas com a Cruz de Honra e, no gracejo sádico do Fuhrer, a mãe de seis filhos era mais importante do que um advogado).

Formada com esta carga doutrinária, a mulher nazista tinha o seu destino traçado: testemunha, cúmplice e assassina, sejam como parteiras, enfermeiras, burocratas, sejam como diligentes assessoras dos maridos. Ainda que com ânsia de vômitos, sinto-me no dever de registrar, pelo menos três personagens de episódios asquerosos: Liesel Wilhaus (Janoska, Polônia) praticava tiro ao alvo matando os judeus que passavam pelo seu quintal; Johanna Altvaver (Ucrânia) atraia crianças judias com doce e atirava na boca das vítimas com sua pistola de prata; Vera Wohlauf, grávida, acompanhou o marido num dos guetos poloneses para assistir ao massacre e se divertia chicoteando os judeus.

Infelizmente, os tribunais de desnazificação foram, no mínimo, benevolentes com as genocidas que, doutrinadas para matar seres inferiores, inimigos de uma causa nobre, obedeciam, como ocorre, atéhoje, a ordem interior de eliminar o outro, mandamento primeiro dos ódios inabaláveis. De fora para dentro, a consciência, jácontaminada, estava legitimada pelo poder político. Como de costume, alegavam que "não sabiam de nada" ou "cumpriam ordens".

No entanto, em meio àlouca disseminação do mal, luzem estrelas do bem e da compaixão, em gestos raros de bondade e em palavras proferidas de inconformismo, medo, desamparo, como atesta a carta de Annette Schucking (Novogorod-VolynskUcrânia, 5 de junho de 1941): Ah. mamãe, o mundo éum enorme matadouro.  

A Indiferença Mata

Gustavo Krause, | ter, 29/07/2014 - 17:22
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Sentei-me àmesa para tomar o caféda manhã. Dividi o olhar entre o pão nosso de cada dia e a edição JC do dia 29 de julho do corrente ano, caderno Cidades. Manchete: Crianças comem alimento do lixão e duas morrem. O pão que mata a fome e, pelo caminho da fé, conforta almas em conflitos, não desceu goela abaixo e fez baixar a xícara de caféao pires, não permitindo que o primeiro gole se transformasse na brasileiríssima boa média.

Garganta travada, olhos incrédulos e um corpo paralisado, banhado de vergonha e de tristeza. Vergonha de mim mesmo, assustado pelos trovões da consciência: Cara que parte cabe a vocênesta tragédia?.

E na medida em que lia a matéria, o travo inicial dava um nóna garganta: CATENDE Na tarde do último sábado, ao sair do lixão de Catende de onde tira o seu sustento, o catador de lixo Joseildo Santana, 22 anos, separou o que podia ser consumido e guardou. A parte do alimento impróprio para consumo (leite e macarrão instantâneo) seria jogada para as galinhas no quintal do agricultor Luiz Amaro da Silva, 44, morador do Engenho Limão, área rural do município. Deixada em cima do fogão, a comida foi alcançada por Letícia Maria da Silva, 7, que levou o macarrão diretamente ao fogo. Dividiu com a sobrinha Rayane Maria da Silva, de um ano e seis meses. Bastaram poucos minutos. As duas, que antes brincavam no quintal com as outras crianças da casa correram pedindo socorro aos pais. Reclamavam de dores na barriga e vomitavam. A família correu para o hospital. Letícia morreu a caminho. Rayane chegou a ser atendida na Unidade Mista de Catende.

Para completar o drama, vem o comentário desolado de Rosângela, esposa de Luiz Amaro: Logo naquele dia, que eu tinha conseguido um dinheiro e cuscuz. Ela tinha almoçado cuscuz.

Não tenho tendências à autoflagelação. Não me considero mais ou menos sensível do que ninguém, mas compartilho do sentimento de que, no conjunto, a sociedade brasileira exerce a responsabilidade social aquém de suas possibilidades. Vou mais adiante: o sofrimento, a humilhação, as violências, os maus tratos, a ausência de compaixão, um noticiário repleto de horrores em que os mais pobres, os mais fracos, os deserdados, sobretudo as crianças, escudos e alvos da miséria humana, tudo concorre para uma banalização do mal de tal sorte que dela nasce uma indesejada indiferença. Nasce e quem quiser que busque explicação. Mas nada justifica. E a razão ésimples: a indiferença mata sentimentos e gente.    

De outra parte, a dimensão da tristeza não me permite, nem me permitiu identificar, como pretensioso magistrado imune aos pecados sociais, um bode expiatório e submetê-lo a um furioso libelo acusatório.

No entanto, convém registrar que as crianças foram vítimas da negligência de uma política pública: A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela lei 12.305 de 02 de agosto de 2010, objeto de duas décadas de discussão no Congresso Nacional, dispõe no artigo 54: A disposição final ambientalmente adequada aos rejeitos, observado o disposto no parágrafo primeiro do artigo 9º, deveráser implantada em até4 anos após a data de publicação desta lei. Ou seja, a lei não pegoue, uma semana antes do dia fixado, o lixão de Catende matou duas crianças.

Por sua vez, pesquisa realizada pela Confederação Nacional dos Municípios revela dados frustrantes. Dos 2332 municípios com até300 mil habitantes, mais de 45% sequer possui o Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos (prazo para formulação encerrou em 2012); mais de 800 municípios destinam os resíduos para lixões; das 577 propostas recebidas pelo Ministério do Meio Ambiente, entre 2011 e 2013, apenas 96 foram contratadas, 8 estão em execução no valor irrisório de R$ 6,1 milhões; das 26 capitais e o Distrito Federal, 16 não têm aterros sanitários e operam em lixões.

Pelo andar da carruagem, os prazos serão dilatados (a pedida équatro anos), o jeitinho vai continuar fazendo vítimas e muito, mas muito lixo vai sujando vidas em quantidade tal que não dápra botar debaixo do tapete.

 

A Arte de Governar

Gustavo Krause, | qui, 03/07/2014 - 11:20
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O desuso do "Manifesto das sete artes", publicado em 1923, que reconheceu o cinema como a sétima arte (hoje, são identificadas 11), deixa-me àvontade para incluir mais uma, a arte de governar.

Muita gente vai torcer o nariz diante de tamanha ousadia. As pessoas, em geral, estão ressabiadas com o governo, qualquer governo, em especial o nosso, perito  em malasartes e aívem um cara escrever sobre a arte de governar.

Justifico. A expressão "arte" admite uma licença na linguagem coloquial que amplia seu sentido original e permite o uso para traduzir a combinação de elementos concretos e abstratos capazes de qualificar o fazer humano (cultura). De outra parte, governar éuma ação intensa, transformadora e de tal complexidade cuja força pode produzir o belo e o trágico. Nela estão contidos o exercício do poder, o jogo da política e a  misteriosa essência do ser humano em toda sua grandeza e miséria.

De outra parte, nunca édemais lembrar que a inseparável relação entre governo e política avaliza conceitos clássicos que mencionam "ciência da governação dos   Estados"; "Arte e prática da governação das sociedades humanas"; e definições que  acrescentam àarte e àciência "a ética do bem comum".

Com efeito, o tempo das disputas eleitorais anima a reflexão sobre a arte de governar, reflexões, aliás, antigas, profundas e suficientes para abarrotar muitas bibliotecas.

O apelo àconcisão impõe o risco de me limitar a duas luminosas lições.

A primeira vem da civilização grega, particularmente do pensamento aristotélico, que exaltava a moderação como a virtude excelsa do homem porque, distante dos extremos, encontra o justo no caminho do meio. Éo contraponto dos excessos. Como toda virtude, ésilenciosa e passível de ser adquirida. Virtude laica e religiosa que ensina ser moderado em tudo, sobretudo, na arte de governar, no perigoso manejo do poder, este fenômeno social que se resume no domínio de homens sobre homens.

A outra lição vem do mais admirado e injuriado pensador, o florentino Nicolau Maquiavel. Maquiavel não era maquiavélico. Maquiavel foi um realista pessimista. Recomendava prudência e rejeição àingenuidade, ou seja, recomendava o pessimismo preventivo que se traduz na seguinte linha de conduta: admitir o mal não significa desejá-lo, mas reconhecer que ele étão provável quanto o bem desejado. Mirou no Príncipe, mas abriu os olhos do povo para o que é, para a natureza e o exercício do poder, abstraídas as prescrições do dever ser.

Em resumo: a virtude da moderação e o pessimismo preventivo devem ser companhias permanentes de quem governa. Uma revela o grande desafio do ser; o outro ajuda a superar o desafio do fazer.

Nas democracias, os governantes são eleitos na esperança de que cumpram os desígnios dos cidadãos. Não édifícil identificar carências e demandas sociais; não édifícil prometer políticas públicas e programas de governo devidamente embalados pelos modernos recursos do marketing político e do espetáculo midiático. A dificuldade fundamental do governante reside no pretenso dilema: atender o imediatismo das necessidades ou governar para as futuras gerações?

A meu ver, o dilema éfalso. Nem o populismo imediatista, nem o idealismo atemporal, isoladamente, dão sustentação ao bom governo.

A propósito, governar não esgota o seu significado em gerir, administrar organizações, entre elas, o Estado; governar édar rumos, dirigir, pilotar uma embarcação com o leme da clarividência de modo a abrir caminhos em direção a um porto seguro.

Desta forma, a arte de governar exige a virtude da moderação no uso do poder, a visão equilibrada entre o agora e o depois, a resiliência diante de turbulências e tempestades.

Com as eleições na porta e superada a fase das estranhas alianças (tratadas, aliás, com palavras que ferem ouvidos pudicos), estána hora de os candidatos demonstrarem que épossível, com uma visão de mundo, ideias e propostas viáveis governar com engenho e arte.

No meu caso, ficaria satisfeito com uma agenda básica: (1) o trinômio, educação/conhecimento/inovação; (2) instituições democráticas/inclusão; (3) governo que funcione. E antes que esqueça: adicionar ao PIB, indicador de quantidade, o felicitômetro, indicador de qualidade.

A Copa, o Gol e o Voto (II)

Gustavo Krause, | ter, 20/05/2014 - 09:49
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Para quem não leu o primeiro artigo, o fio da meada é a relação entre futebol, política e, particularmente, as eleições presidenciais que, desde 1994, coincidem com a realização das copas. Vamos a elas.

A Copa de 1994. Foram 24 anos de amargo jejum, agravado pelo travo da segunda maior decepção do torcedor brasileiro: a tragédia do Sarriá, quando o carrasco italiano Paolo Rossi decapitou uma das mais brilhantes seleções do mundo, a de 1982. Em 94, o Brasil vivia sob inflação nas alturas e instabilidade política que assustava a democracia nascente. No futebol, nada excepcional, à exceção de Romário. O fleumático Parreira e o experiente Zagalo apostaram no ramerrame eficiente do futebol burocrático. De repente, uma sigla engenhosa, a URV, se transformou numa moeda sólida, o Real; de repente, na decisão dos chutes da marca penal, nossos atletas acertaram o pé, a mão salvadora de Taffarel e o chute torto de Baggio ajustaram as contas de 1982. É tetra! A pergunta é: qual a influência da vitória do futebol na eleição de Fernando Henrique? Nenhuma. A eliminação dos efeitos perversos da inflação crônica, associada à estatura moral e intelectual do candidato FHC, estes sim, foram fatores determinantes do julgamento popular.

Com efeito, o eleitor distingue os momentos – o esportivo e o eleitoral – e não os confunde. Tanto é verdade que na Copa de 1998, a humilhante goleada da França não evitou a reeleição de FHC.

A Copa de 2002. Mais uma vez, Copa e eleição presidencial de mãos dadas. Realizada em dois países asiáticos, depois de hospedada pelo perna de pau Tio Sam, o esporte eurocêntrico, globalizou-se, definitivamente, em 2010, ao chegar à pátria de Mandela. A boa seleção brasileira teceu os laços solidários da “família Scollari”; fez o “Fenômeno” renascer das cinzas; mostrou ao mundo o implacável pé esquerdo do humilde cracaço pernambucano Rivaldo. Resultado: o Brasil é penta. E a eleição? A oposição (Lula) venceu a situação (Serra). O suposto favorecimento da situação com a vitória na Copa, mais uma vez, não bateu com o ânimo do torcedor.

As Copas de 2006 e 2010. Duas derrotas no futebol e duas vitórias eleitorais: reeleição de Lula e eleição de Dilma. Derrotas vergonhosas: a de 2006, apelidei  a competição de “Copagode de celebridades” e, na de 2010, os jogadores (de joelhos) trocaram a letra do hino nacional pelos versos da marselhesa.

A Copa de 2014. Até agora olhamos os fatos pelo retrovisor. Fácil. Afinal, contra fatos não há argumentos. Porém, os fatos mudaram e as percepções também. A vertigem das mudanças ocorridas no mundo inteiro merece, no mínimo, uma apurada reflexão. E esta reflexão resulta do fenômeno universal que são as manifestações de rua. Distintas no tempo e situadas nos mais diversos contextos políticos e histórico-culturais, as manifestações de rua têm vários pontos em comum: interpretam uma emoção coletiva de indignação; refletem profunda descrença nas instituições da democracia participativa; eclodem a partir de uma centelha; movem-se do espaço cibernético para o espaço público.

Nos movimentos brasileiro de junho, a fagulha foi o aumento da tarifa de transporte público. Veio à tona uma torrente de insatisfação que se resume no seguinte: nós não estamos satisfeitos com o Brasil. É aí que entra a percepção de dois brasis: um que não funciona; outro, o Brasil da Copa, que superfatura obras, que promete um legado onacabado, enfim, um país que subverteu prioridades e que tem dinheiro para financiar as prioridades invertidas.

O que está em jogo não é o resultado do jogo: é o contraste entre o Brasil real e o Brasil/FIFA. O clima é desfavorável a quem governa. Parcela considerável dos torcedores descolou da seleção. A Pátria descalçou as chuteiras. Ser campeão é um anestésico passageiro. Remanesce o Brasil real, empacado, mal-humorado, com explosões de violência e rancor social.

Mais que emblema, a Copa tornou-se um problema para o governo. Não ser campeão é uma dor passageira. Não quero viver esta dor. A mim, não importa se tem ou não influência eleitoral. Sou torcedor. A bola rolou, passo a pensar com o coração. Hexa e luxo!

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