Dia Mundial da Psoríase: preconceito e luta

Doença não contagiosa afeta cerca de 3 milhões de pessoas no país; lesões na pele fazem com que os pacientes sofram discriminação

por Alex Dinarte qui, 29/10/2020 - 16:54
Wikimedia A psoríase é uma doença autoimune e não tem cura, o tratamento pode custar até R$ 10 mil por mês Wikimedia

Desde o ano de 2004, as autoridades de saúde escolheram a data de 29 de outubro como o Dia Mundial da Psoríase. A doença inflamatória não-contagiosa, que segundo o Centro Brasileiro de Estudo da Psoríase (CBEP) acomete cerca de três milhões de pessoas no país, tem como principais características o surgimento de manchas vermelhas que escamam a pele. No entanto, o preconceito pode deixar marcas ainda mais doloridas em quem convive com o problema.

Com o diagnóstico clínico para psoríase desde os primeiros dias de nascida, a estudante Maria Eduarda Bezerra, 16 anos, afirma que não se lembra da vida sem as crises causadas pela doença. Segundo ela, os acessos eram constantes. “Ardor, coceira e dor nas articulações estavam presentes no meu dia-a-dia. Em 2017 tive uma crise em que pude ver a minha pele em carne viva, fiquei sem andar por dez dias”, lembra.

Além do incômodo com as lesões na pele, outros fatores desconfortáveis eram o que a estudante ouvia das pessoas ou apenas percebia a partir do olhar. “O bullying fez parte da minha vida. ‘Eca, sai de perto’, ‘Ela não lava o cabelo, está cheio de areia’, ‘contagiosa’, eram parte do vocabulário que usavam comigo”, conta Maria Eduarda.

Maria Eduarda Bezerra, 16 anos, estudou a doença e passou a dar palestras para combater o preconceito. Foto: arquivo pessoal

“Ao entrar em uma loja, te olham de cima para baixo, um olhar nada legal, isso incomoda bastante”, acrescenta. As ofensas e os olhares repletos de desprezo devido aos efeitos da doença na pele ou no couro cabeludo viraram motivo para que Maria Eduarda, além do tratamento, fosse em busca da redução do preconceito contra quem sofre com o problema.

“Relevei as palavras ofensivas e com 11 anos passei a estudar psoríase e comecei a dar palestras, para esclarecer a quem se referia a mim daquela maneira”, cita a estudante que completa. “Por isso, é preciso falar sobre ela pois psoríase não é contagiosa, mas a desinformação é”, enfatiza.

Tratamento natural

A empresária Carolina Ribeiro, 35 anos, é mais uma diagnosticada com psoríase desde a infância. Embora se considere privilegiada por não ser manifestar as formas mais graves da doença, Carolina ressalta as restrições impostas pelo problema crônico no cotidiano.

“Nunca participei das aulas de educação física na escola porque os esportes tinham contato direto da bola com a mão, tenho que ter cuidado ao cozinhar para não tocar em coisas como sal e tomate, não posso fazer nada que tenha muito atrito com as mãos”, aponta.

Carolina Ribeiro, 35 anos, afirma que o tratamento psicológico é importante para combater os gatilhos emocionais que desencadeiam as crises. Foto: arquivo pessoal

Segundo ela, mesmo sem tantas crises, o tratamento era feito a base de pomadas com corticoide, mas não via evolução do quadro após uso dos medicamentos por vários anos. “Depois tentei homeopatia, mas precisei parar porque passei por um tratamento do estômago e não poderia usar outros remédios. Fiz fototerapia, mas o remédio tomado para deixar o corpo sensível à luz causava efeitos colaterais fortes e hoje em dia faço tratamentos naturais, que têm me ajudado bastante”, comenta a empresária.

A saída encontrada por Carolina foi aumentar os cuidados com a alimentação e com a saúde mental. Segundo ela, o problema que se apresentava na pele causava ainda mais transtornos no emocional e a ausência de um acompanhamento psicológico pode desencadear mais incômodos aos acometidos pela Psoríase.

“A psicologia não é uma das primeiras coisas que nos são indicadas e considero isso um erro. Ter esse apoio deveria ser aconselhado logo de cara para ajudar a enfrentar a doença, o processo e esse ‘looping’ de ficar triste por conta da psoríase e ter uma crise disso por conta do estresse emocional causado por ela mesma”, reitera a empresária.

Além da pele

De acordo com o médico dermatologista Cid Sabbag, especialista em psoríase, estudos recentes mostram que os quadros da doença podem ir muito além dos problemas relacionados à pele dos pacientes.

Lesões de pele causadas pela psoríase. Foto: Pixabay

“Hoje a gente sabe que é uma doença que atinge vários órgãos. A psoríase pode levar o paciente à obesidade, aumentar o colesterol que desencadeia a hipertensão, elevar o açúcar que aumenta a glicemia, a gordura no fígado e até a um maior risco para enfarto, derrame e trombose”, explica.

Segundo o médico, o tratamento de controle da psoríase é absoluto e, embora haja módulos caros, está disponível no Sistema único de Saúde (SUS). “Cada dermatologista tem que avaliar a gravidade do caso para indicar o melhor tratamento. Tem tratamentos que custam R$ 30 por mês e outros que custam R$ 10 mil, mas existe na rede pública de saúde”, complementa.

Tratamento pelo SUS

Além dos medicamentos disponíveis na rede de saúde pública, como adalimimabe, secuquinumabe, ustequinumabe e etanercepte, um novo componente passará a fazer parte do tratamento de psoríase no SUS. O anticorpo monoclonal de imunoglobina humanizada risanquizumabe será incorporado ao quadro de fármacos do sistema e poderá ser receitado aos pacientes após diagnóstico clínico. De acordo com os pesquisadores, mais de 80% dos que sofrem com a doença e foram medicados com o composto tiveram melhora de 90% nas lesões da pele. O prazo limite para que o novo medicamento seja disponibilizado no SUS é março de 2021.

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