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Nesta quarta-feira (22), um supermercado localizado no Centro da cidade de Paulista, na Região Metropolitana do Recife, foi notificado e multado pela Vigilância Sanitária por estar comercializando carnes bovinas e de frango com prazo de validade vencido - cerca de 300 kg de carnes foram recolhidas. O Procon do município também integrou a ação. O nome do estabelecimento não foi divulgado.

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Laticínios em geral, arroz integral e salgadinhos impróprios para o consumo também foram apreendidos. Todo o material será incinerado no aterro sanitário da cidade. A Vigilância Sanitária confirma também que o estabelecimento estava fracionando os produtos vencidos e vendendo separadamente ao consumidor. "Isso é muito grave porque é prejudicial à saúde e pode causar várias doenças”, frisou o inspetor da Vigilância Sanitária Pedro Albuquerque.

Os fiscais notificaram o estabelecimento e aplicaram uma multa. O proprietário tem até 30 dias para regularizar a situação. Caso contrário, o responsável poderá ter o estabelecimento interditado. A ação conjunta entre a Vigilância Sanitária e o Procon vai continuar até a próxima semana em outros pontos comerciais do Centro da Cidade.

Considerada uma das maiores escritoras da literatura brasileira, Clarice Lispector completaria 100 anos em 2020. Nascida na Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920, a autora passou sua infância, entre 1925 e 1934, no Recife, após sua família deixar o país europeu devido à perseguição antissemita. Recife está presente em muitos textos da escritora. Entretanto, a oportunidade única da capital pernambucana servir de moradia para tão cultuada figura parece não ser muito valorizada. O imóvel em que a escritora viveu é hoje um retrato do abandono e do descaso.

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A edificação de três pavimentos está localizada na esquina da Travessa do Veras com a Rua do Aragão, em frente à Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista, centro do Recife. Com traços coloniais, o prédio tem idade estipulada em 150 a 180 anos. Em ruínas, o imóvel está vandalizado, com buracos no telhado e portas vedadas com gesso. O piso superior não existe mais e a calçada serve de depósito de garrafões de água.

Duas placas turísticas desgastadas lembram que ali viveu a escritora. Uma intervenção artística colou uma imagem da ucraniana na parede lateral. São os poucos vestígios que associam o endereço a Clarice. 

O sobrado é propriedade da Santa Casa de Misericórdia do Recife, que busca transformar o local em um ponto de atividades culturais, mas diz não ter dinheiro para a reforma. A organização civil contratou uma arquiteta para desenvolver um projeto e, a partir daí, conseguir linhas de crédito para fazer a obra. O contrato é de risco, ou seja, a arquiteta só receberá pelo serviço caso haja o financiamento. 

“O projeto se preocupa com o restauro e a reforma da edificação para que possa ser ocupada e usada”, resume Lia Rafael dos Santos, arquiteta contratada pela Santa Casa. Para definir o uso do prédio seria necessário um projeto cultural específico. A arquiteta imagina a operação de uma livraria no térreo e a realização de atividades culturais literárias, como oficinas, nos dois pisos superiores. O objetivo é que o sobrado tenha as mesmas características de quando Clarice Lispector viveu no Recife. Não há intenção de transformar a construção em museu.

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Lia conta que o sobrado já havia sofrido várias alterações quando Clarice foi morar no local. “Pelo que a gente levantou da história, antes era um sobrado unifamiliar e a parte de baixo era comercial. Os dois pavimentos superiores eram moradia de uma família. Ele passou a ser alugado para mais de uma família e foi subdividido para morar várias pessoas”, explica. O térreo do casarão era ocupado como um ponto comercial até 2008. Em 2013, há registro de invasão, ocasião em que foram furtados vários elementos do local.

O valor da reforma está orçado em cerca de R$ 2 milhões. Após aprovação na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), a Santa Casa tentará inseri-lo em editais, como o da Lei Rouanet. O imóvel também não é tombado. O processo de tombamento se arrasta desde 2017 e está em fase de análise física. A Fundarpe prevê que todo o processo seja concluído até o final do primeiro semestre deste ano.

Clarice no Recife

Foi no Recife, quando vivia no sobrado, que Clarice Lispector aprendeu a ler. No Grupo Escolar João Barbalho, no bairro da Boa Vista, a autora tinha entre seus amigos de sala de aula Leopoldo Nachbin, que viria a se tornar um relevante matemático brasileiro e é citado na crônica “As grandes punições”, escrita por ela na década de 60. 

No texto “banhos de mar”, ela relata o prazer que tinha em tomar banho nas águas de Olinda, Região Metropolitana do Recife (RMR). A família saía de casa de madrugada, em jejum, e pegava o bonde ainda com o céu escuro. 

Ela costumava roubar rosas e pitangas, como narra em “Cem Anos de Perdão”. E apreciava o Carnaval da escada do sobrado. Foi na rua, diante do sobrado onde morava, que Clarice esqueceu um pouco da crítica saúde da mãe, que sofria de paralisia progressiva, enquanto um garoto enchia seus cabelos de confete e sorria para ela, como narra em “Restos de Carnaval”.

A criança estudou no tradicional Ginásio Pernambucano e teve aula com famosos professores, como Agamenon Magalhães, de geografia, e Olívio Montenegro, de história. Clarice se mudou do Recife para o Rio de Janeiro aos 12 anos. 

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Após a divulgação da identidade da golpista do ‘boa noite Cinderela’, uma nova vítima foi à Delegacia de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, prestar denúncia. Na manhã desta quarta-feira (22), um policial militar relatou que também foi prejudicado por Regina Vivian Rabelo, de 26 anos.

O prejuízo e a identidade do militar não foram revelados, mas sabe-se que ele sofreu do mesmo golpe. Para dopá-lo e cometer o crime, ao invés de bebida alcoólica, Regina colocou três comprimidos do ansiolítico Clonazepam de dois miligramas em um sorvete.

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Na noite dessa terça-feira (21), ela foi capturada em casa, no bairro de Areias, na Zona Oeste do Recife, e confessou que havia aplicado os quatro golpes que era suspeita. Regina é mãe de três filhos e tornou-se alvo do inquérito após usar um aplicativo de relacionamento para roubar o cartão de crédito de um metroviário, de 56 anos, e gastar cerca de R$ 8.100.

Após o interrogatório, ela foi liberada. O delegado Carlos Couto explica que o flagrante já não existia e ela ainda não possui mandados de prisão, por isso foi solta. “A gente tá falando de um caso que aconteceu no dia 28 de dezembro. O flagrante é quando você prende a pessoa que tá cometendo o crime ou logo após [...] e também ela não tem o mandado de prisão preventivo, nem o temporário”, pontuou.

Os dois homens que chegaram de táxi ao motel, no bairro do Barro, Zona Oeste do Recife, e auxiliaram na fuga, já foram identificados. As investigações prosseguem para que eles também sejam localizados.

A suspeita de aplicar o golpe 'boa noite, Cinderela' foi detida na noite dessa terça-feira (21), na própria residência, localizada no bairro de Areias, Zona Oeste do Recife.  Com a ajuda dois homens, ela fez compras com o cartão da vítima, de 56 anos, que resultaram no prejuízo de aproximadamente R$ 8.100.

Com imagens do circuito interno do motel, a Polícia Civil conseguiu identificar a desempregada, de 26 anos, que confessou o crime, mas foi liberada. A golpista conheceu a vítima por meio de um aplicativo de relacionamentos.

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De acordo com as autoridades, a tática de entorpecer homens para roubá-los era recorrente. Desde agosto do ano passado, pelo menos três vítimas denunciaram a criminosa.

Os dois homens que se deslocaram de táxi para resgatá-la no motel já foram identificados e são procurados pela polícia. As investigações prosseguem na Delegacia de Jardim São Paulo.

Após trocar tiros com a Polícia Militar, um menor foi apreendido com um revólver calibre 38 e 175 pedras de crack. A autuação ocorreu na madrugada desta quarta-feira (22), na Rua João Cândido, no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife.

No meio do tiroteio, dois suspeitos que estavam com o adolescente conseguiram fugir. Segundo a Polícia Civil, o capturado estava foragido do sistema prisional e vai ser acusado de ato infracional correspondendo ao tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo.

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As férias de janeiro estão quase no fim e o Parque Estadual de Dois Irmãos tem uma programação que garante diversão para todas as idades. O equipamento vem realizando durante essa semana o Zoo Férias, para crianças e jovens. Mas na próxima sexta-feira (24) será realizada a segunda edição do Zoo Noturno, um passeio pelo parque para conhecer os hábitos de animais que só aparecem a noite.  

O passeio é direcionado para crianças a partir dos 6 anos, acompanhadas de um responsável, além de jovens e adultos, e é todo guiado pela equipe técnica do zoológico, entre médicos veterinários, biólogos, tratadores e monitores que explicam muitas curiosidades sobre diversos animais. Para o Zoo Noturno o público precisa vestir calças compridas e sapatos fechados, além de levar lanternas.

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Um desses animais é o Leão, de hábito noturno e que é considerado o “Rei da Selva” pela força, agilidade e aparência majestosa, tem um rugido que pode ser ouvido a uma distância de 8 quilômetros e pode dormir durante o dia de 18 a 20 horas. As corujas também são noturnas e encantam pela beleza e muitas curiosidades; o parque tem três espécies: a coruja- buraqueira, a orelhuda e a murucututu.  

Zoo Mal-assombrado - E para encerrar o mês de janeiro, será realizado no dia 31 uma edição especial do Zoo Mal-assombrado. A atividade é um passeio noturno pelo parque com informações sobre os animais de hábitos noturnos e alguns convidados especiais: assombrações populares da história de Pernambuco que promete muita diversão, sustos e boas risadas. Confirmaram presença o “Velho-do-saco”, “Papa-figo”, “Menino do pirulito”, “Loira do banheiro”, “Branca Dias” (uma rica mulher que foi caçada como bruxa pela Inquisição europeia no século 19), entre outros personagens.  

A partir das 18h, a bilheteria estará aberta e os grupos serão formados para início do passeio, que será também guiado por profissionais e monitores do Parque. O ingresso para esse passeio custa R$ 20,00 reais, a bilheteria fica aberta até às 20 horas. O Zoo Mal-assombrado é indicado para adolescentes a partir dos 12 anos acompanhados pelo responsável e adultos. Para curtir o Zoo Mal-assombrado é preciso usar calças compridas e sapatos fechados, também é importante trazer lanternas. E para garantir o bem-estar e a tranquilidade dos animais, não será permitido fotos com câmeras fotográficas ou celulares com flashes.

Serviço:

Zoo Noturno

Data: 24 de janeiro de 2020

Horário: a partir das 18h

Local: Parque Estadual de Dois Irmãos, na Praça Farias Neves, s/n - Dois Irmãos, Recife - PE

Entrada: preço único R$ 15,00 (quinze reais); Os ingressos serão vendidos apenas no dia 24 de janeiro na bilheteria do Parque. Observação: os visitantes deverão comparecer vestidos com calça e sapatos fechados, e trazer lanternas.

 

 Zoo Mal-assombrado - Edição especial

Data: 31 de janeiro de 2020

Horário: a partir das 18h

Local: Parque Estadual de Dois Irmãos, na Praça Farias Neves, s/n - Dois Irmãos, Recife - PE

Entrada: preço único R$ 20,00 (vinte reais) . Os ingressos são vendidos na bilheteria do parque no dia do evento, 31 de janeiro. Crianças a partir de 12 anos devem estar acompanhadas de responsável. Observação: os visitantes deverão comparecer vestidos com calça e sapatos fechados, e trazer lanternas.

*Da assessoria de imprensa

O Túnel da Abolição, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife, amanheceu alagado e está interditado nesta quarta-feira (22). Uma nova falha na bomba de drenagem, aliada às chuvas que atingiram o Recife na noite dessa terça-feira (21), motivaram o bloqueio. Uma equipe da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) está no local e propõe um desvio no trânsito.

Com a mobilidade dificultada na região, uma equipe da CTTU foi acionada para orientar o trânsito e sugere um desvio à direita, pela Rua Real da Torre, aos motoristas que seguem em direção à Avenida Caxangá.

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Durante a formatura do Curso de Formação e Habilitação de Praças 2019 da Polícia Militar de Pernambuco, um formando aproveitou a oportunidade e pediu a noiva em casamento. O fato aconteceu nesta última segunda-feira (20), no Quartel do Derby, localizado na área central do Recife. “Quando eu passei na prova da PM já me veio à cabeça preparar alguma surpresa pra ela, ao longo do curso eu conversei com minha turma, que topou me ajudar”, disse o soldado Wildemberg.

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Segundo a PMPE, o casal está junto há oito anos e tinha se conhecido em uma festa que aconteceu na escola em que a noiva, identificada apenas como Izabel, estudava. Eles começaram a namorar um mês após o primeiro encontro. 

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Izabel diz que não desconfiou de nada. “Eu não esperava o pedido, ele e os amigos disfarçaram muito bem, quando vi ele se ajoelhando e pegando a aliança comecei logo a chorar. Achei a surpresa maravilhosa, me surpreendeu demais, estou muito feliz”, disse a noiva.

Como os pombinhos são naturais de Araripina, Sertão de Pernambuco, e neste início de carreira, o soldado Wildemberg vai atuar na Região Metropolitana do Recife, o casório vai ter que esperar um pouco.

 

A partir da próxima quinta-feira (23), a cidade de São Paulo passará a atender pacientes no programa Corujão do Câncer. A iniciativa, elaborada em parceria com os melhores hospitais da capital paulista, oferecerá atendimento para tumores de maior incidência como estômago, colorretal, tireoide e próstata. A proposta da primeira fase do projeto é elevar em 13 vezes o número de vagas para exames, além de permitir o acompanhamento de saúde na rede municipal entre dois e cinco anos.

Entre as instituições parceiras do programa estão os hospitais AC Camargo, Instituto de Câncer Dr. Arnaldo (Cavc), Hospital Municipal Dr. Gilson de Cássia Marques de Carvalho/Einstein e Hospital Sírio Libanês.

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Preparada para entrar em vigor no mês de março, a segunda fase do Corujão do Câncer voltará as atenções para pacientes diagnosticados com os mais diferentes tipos de câncer, como os de pele, ginecológicos, hematológicos, neurológicos, oftalmológicos e pediátricos. Nesta etapa, serão mais de 70 mil vagas para exames a serem realizados entre 19h e 22h em 21 unidades de saúde municipais.

O câncer é o crescimento desordenado de células que invadem órgãos e tecidos. O diagnóstico imediato aumenta as chances de cura em 60%. Em 2019, o município de São Paulo atendeu 10.839 pessoas com câncer, na rede municipal do Sistema Único de Saúde (SUS). Na capital paulista, os exames para detecção da doença estão disponíveis na rede Especializada de Média Complexidade de São Paulo.

A cidade de São Paulo celebra 466 anos no próximo sábado (25). Vários eventos estão programados para comemorar o aniversário da capital paulista e, este ano, o comércio da grande metrópole também quis fazer parte dos festejos. Entre os dias 23 e 31 de janeiro, a Associação Comercial de São Paulo (ACSP) promove a Sampa Week, iniciativa semelhante a black friday que acontece em novembro. O evento, que terá duração de uma semana, junta comerciantes e empresas prestadoras de serviço com descontos e promoções no período.

Na lista das empresas que aderiram à nova data de descontos especiais para paulistanos e turistas estão nomes como Casas Bahia, Ponto Frio, Magazine Luiza, Pernambucanas, Azaleia, Habib’s, Livraria Saraiva, Renner, Riachuelo e Marisa, além de hotéis, pontos turísticos e companhias aéreas. Os comerciantes que quiserem participar da seleção Sampa Week devem se inscrever no site do evento para terem acesso aos cartazes de divulgação da campanha.

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Dona do maior Produto Interno Bruto (PIB) do país, São Paulo vê na Sampa Week a possibilidade de estimular ainda mais o comércio e o setor de serviços. Segundo a organização, a concessão de descontos deve aumentar o volume de vendas e movimentar a economia da cidade.

Confira a lista com todos os participantes do programa em sampaweek.com.br.

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) lançou a cartilha com orientações sobre a violência contra a mulher e a Lei Maria da Penha. O objetivo central da ação é garantir que seja de conhecimento público as principais informações acerca de casos de violação de direitos da mulher. Desta forma, o documento reúne orientações práticas sobre a temática que vão desde a identificação dos tipos de violência sofridas pela mulher até contatos que podem ser acionados em casos de emergência.

Chantagem, xingamentos, isolamento dos amigos e da família, ou até mesmo empurrão. São formas de violência doméstica previstas na Lei Maria da Penha, mas muitas vezes não identificadas por quem sofre com elas. Fazer com que a própria mulher se perceba vítima é um dos desafios no enfrentamento a este tipo de crime.

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“Conhecimento é poder. Lendo a cartilha, uma vítima pode começar a refletir sobre seu relacionamento. Ou alguém pode identificar o relacionamento de uma amiga e conversar com ela. Precisamos dar conhecimento não só às vítimas, mas à população em geral. Até pouco tempo, a violência contra a mulher era algo do âmbito privado. Hoje, por força de lei, é assunto da sociedade. É um problema de todos nós, que gera consequências”, disse a procuradora de Justiça do MPPE, Sineide Canuto.

Com textos e ilustrações, a intenção é de que esse material seja compartilhado pelas redes sociais e aplicativos. “Os filhos dessa violência têm uma tendência de reproduzir os atos violentos, não só com as companheiras, mas com a sociedade. Essas mulheres vão lotar o serviço de saúde, necessitando de serviços de psicologia e psiquiatria. Elas também terão problemas no trabalho. A gente precisa falar sobre isso. A gente tem de meter a colher”, disse a promotora de justiça, Geovana Belfort, uma das autoras da cartilha. Nas informações contidas, destacam-se: os tipos de violência, onde a mulher pode pedir ajuda, o que está previsto na Lei Maria da Penha e como se dá o ciclo da violência.

A cartilha está disponível para download na página oficial do MPPE. “No plano da repressão criminal, no ataque aos crimes que já ocorreram, como na prevenção, os índices são muito altos. Como em qualquer crime, não temos esperança de erradicar completamente, mas precisamos reduzir a incidência”, reforçou Sineide Canuto.

Participaram do processo de elaboração, promotoras de Justiça, psicólogas e assistentes sociais do MPPE.

*Da assessoria

 

Cansaço extremo, falta de ar e dor nas pernas. No trajeto de pouco mais de trinta metros que separam sua casa da escola em que estuda, Davi Ryan Querino, de nove anos, precisa superar os rígidos limites de seu corpo para não interromper os estudos. O garoto, residente da zona rural do município do Exu, no sertão do Araripe pernambucano, percorre a pequena distância de bicicleta, parando, ofegante, diversas vezes no caminho. Com 128 kg, ele sofre de obesidade, diabetes e transtorno de ansiedade, contando com a solidariedade de conterrâneos, que aos poucos se articulam em campanha, para viabilizar seu tratamento médico.

“Essa noite não dormi, porque fiquei o tempo inteiro segurando David. Ele não consegue mais dormir deitado, por causa da dificuldade para respirar. Vocês não imaginam o sofrimento que passo com essa criança. Estou tomando remédio controlado para dormir, devido às preocupações que tenho”, conta a mãe de David, Francisca Maria Querino. Dona de casa, ela mora com o garoto e seus dois irmãos, contando apenas com a renda do bolsa família e uma ajuda financeira dada pelo pai das crianças. A falta de dinheiro torna ainda mais difícil o estabelecimento de uma rotina alimentar adequada à condição de David. “É complicado demais o controle da alimentação, esse menino chora me pedindo comida, como posso negar? Ainda tem a questão dos remédios. Se fosse comprar tudo que a nutricionista pediu, gastaria perto de mil reais, mas o benefício só me passa R$ 350”, lamenta Francisca.

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A situação chegou ao conhecimento de um grupo de comunicadores da cidade, que resolveu gravar um vídeo apresentando a situação do garoto. Através das imagens, é possível observar que o sobrepeso já compromete uma das pernas de Ryan, dificultando ainda mais sua mobilidade. “Quero que vocês me ajudem a emagrecer”, pede o garoto.

Diante do material, profissionais de saúde da cidade de Juazeiro do Norte (CE), a cerca de 83km do Exu, cederam consultas gratuitas para Ryan. “Um endocrinologista, um psicólogo e um nutricionista vão receber a gente. As pessoas me perguntam como podem ajudar, mas não recebo dinheiro vivo. Vou abrir uma conta com o nome dele para correr atrás de um tratamento mais profundo”, confessa Francisca. Quem tiver interesse em contribuir com Ryan e sua família pode obter mais informações através do telefone (87) 99638-7283.

A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) aplicou quase 1 milhão de multas no Recife em 2019. Com isso, cerca de R$ 100 milhões foram arrecadados - o que garantiu um recorde para o órgão municipal. Em quatro anos, a arrecadação aumentou cerca de 300%. 

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A Associação dos Motoristas e Motofretistas de Pernambuco (AMAPE) garante que denunciou ao Ministério Público de Pernambuco que no Aeroporto do Recife houve um aumento de 4.000% no número de autuações da CTTU. Segundo o presidente da AMAPE, Thiago Silva, a indústria da multa existe e a própria CTTU está confirmando.

“Dissemos que o cidadão do Recife estava sendo autuado injustamente e os números e a arrecadação milionária mostra isso”, disse. Ainda de acordo com o presidente da entidade, falta transparência na destinação dos recursos. 

“Pouco, ou nada se sabe sobre a destinação destes recursos. As informações disponíveis são genéricas. O cidadão paga mas não sabe para onde o dinheiro vai”, sentenciou.

A Amape salienta que, recentemente, a CTTU adquiriu prédio próprio por R$ 9,5 milhões, alegando economia de recursos. Dias depois, abriu uma licitação para fazer reforma no prédio. Somente com outros serviços de terceiros, não discriminados, foram gastos R$ 20 milhões.

Fátima Matos, militante dos movimentos feminista e negro, atual coordenadora de formação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH) e Conselheira Estadual de Segurança Pública (Consep), explica que o Consep não intervém na política de segurança, porém enfatiza que há a necessidade de um debate mais abrangente sobre a questão penitenciária. Além disso, afirma que no Pará há um índice preocupante de prisão em massa de pessoas que se encontram na condição de negros e pobres.

"Trabalhamos enquanto conselheiros, representando a Sociedade Civil. Nos empenhamos na perspectiva de atender questões que são pertinentes à pauta do conselho de segurança pública. A política penitenciária do Pará tem que estar sendo executada à luz de um conselho nacional penitenciário, de todas as recomendações e deliberações tiradas nas conferências nacionais de segurança pública. No Pará, existe um excesso de encarceramento. Composto em sua maioria, da população negra e pobre, homens ou mulheres."

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Fátima evidencia que uma possível solução para todo esse caos seria um sistema humanizado, que venha oferecer uma melhor assistência ao preso.

"Não é só ver o preso como um preso, mas é a saúde, a educação, vias de trabalho. Tudo que se refere a um cidadão. A própria prisão, a própria privação da liberdade, já é uma forma de estar penitenciando aquele ser humano. Eu não estou aqui, em nenhum momento, fazendo apologia da violência. Acho que as pessoas que cometem o ato infracional, que cometem um crime, quer seja de que tipo for, segundo as leis de execuções penais, têm que estar ali privado da liberdade como condenado. Mas tem que ser uma privação de liberdade à luz de um conselho penitenciário. Não só de intramuros de uma prisão, como extramuros. Como é que está essa família? Como é que são as visitam? Como se relacionam?", questionou.

A conselheira comenta sobre a polêmica envolvendo os Direitos Humanos. "Há uma máxima na sociedade que não entende o nosso trabalho, que diz que os Direitos Humanos defendem bandidos. Não, nós defendemos os humanos. E os bandidos também são humanos. Defendemos que bandido enquanto um preso apenado, condenado, ele tem que ser tratado dentro de todo um sistema penitenciário, do que prevê a Constituição, e que o Conselho indica como deve ser esse trato. Então nós não aceitamos essa pecha de que os direitos humanos defendem bandidos”, afirmou.

Fátima relata quais medidas foram tomadas para coibir a prática de tortura. "A tortura é a forma que nós, do ponto de vista político, definimos. Não é que tenha que ter tratamento de ‘hotel 5 estrelas’, porque nem nós da sociedade civil que não estamos em conflito com a lei temos, principalmente nesta atual conjuntura. Mas é que seja tratado à luz do que é deliberado dentro de um sistema penitenciário, até porque tem financiamento pra isso. Tem recurso pra manter. E nós sabemos que tem indústria da alimentação, indústria da energia, indústria dos lençóis, indústria das condições mesmo que irreais ou surreais de que é dormir em cima de um cimento com um colchão de três dedos de largura. Mas isso é computado como gasto, como recurso investido para o preso dormir, não é essa a condição que se exige. Então as medidas tomadas diante desse atual quadro foram as visitas em inspeção aos presídios, a constatação, a existência de um dossiê relatório, audiência com o governo do estado e todo o sistema de segurança, pedindo providências em relação a isso. E se pensa hoje enquanto uma medida, não seria drástica, mas necessária, a de internacionalizar denúncias. Ou seja, recorrer aos mecanismos internacionais e aos tribunais internacionais de direitos humanos, e isso será feito", concluiu.

Por Caroline Monteiro.

 

 

 

Mauro Gemaque, 37 anos, é proprietário de uma lanchonete e de uma arena de futebol no centro de Marituba, Região Metropolitana de Belém. Natural de Ananindeua, cresceu no bairro do Jaderlândia, próximo ao Hospital Metropolitano. É assim que ele começa a contar um pouco da sua história de vida. A entrevista aconteceu em uma das mesas da sua recém-inaugurada lanchonete. Com o cheiro dos hambúrgueres fritando, ele relembrava o passado.

Hoje, Mauro carrega um sorriso tímido, mas, se o tempo voltasse sete anos antes, a história seria bem diferente. Ao invés do ambiente positivo do trabalho, Mauro estaria em uma cela, com cerca de dois metros, no Centro de Recuperação de Americano 3 (CRA3), com outros três detentos.

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Para entender a história do autônomo é preciso saber que ele teve uma infância um pouco conturbada. Aos 13 anos, enfrentou a dura separação dos pais. Logo em seguida foi morar em Manaus, e quando voltou, aos 16 anos, passou a morar apenas com o pai e o irmão. Sem a presença e atenção da família, passava a maior parte do tempo na rua. E foi assim que o crime o pegou de maneira fácil, influência de más amizades. “Se tu andar com pastor, a tendência é tu ser pastor. Se tu andar com ladrão, a tendência é tu ser ladrão”, diz.

Mauro era apaixonado por armas. Comprou a primeira, depois a segunda. Conta que foi sendo envolvido pouco a pouco. Primeiramente apenas emprestava para os amigos praticarem roubos, mas depois começou a fazer o mesmo. Após perder o medo durante seu primeiro assalto e ver o alto lucro de maneira fácil, entrou de cabeça no mundo do crime. E com isso veio o vício em drogas. Na mesma época, seu irmão havia acabado de deixar a prisão, e como muitos, saiu pior do que quando entrou no cárcere. “De lá não sai uma pessoa com uma índole boa, sai uma pessoa pior. Se entra um ladrão de celular, sai um ladrão de banco”, contou.

Os irmãos se uniram em um plano, idealizado por Mauro: assaltar uma casa em Barcarena, cidade distante cerca de 114 km de Belém. Porém o esquema deu errado, e os dois foram presos. Foi um momento muito difícil, conta Mauro. A vítima o conhecia, ele tinha trabalhado em sua casa. O delegado da cidade também o reconheceu. Os dois eram amigos de infância. “Aquilo foi uma vergonha muito grande, marcou demais. Quando ele me pegou lá, ele falou assim: ‘Eu não acredito’. Foi muito forte, foi uma coisa que me atingiu muito”, relatou com tristeza.

O poder dos "chefões"

Na prisão, Mauro deparou com inúmeras regras impostas pelos próprios presos e disputa de poder. Os internos que já estão há mais tempo e têm certa proximidade com os “chefões” possuem regalias. Por exemplo, somente os seus familiares e amigos que podem entrar na cela nos dias de visitas. “Lá são várias celas, onde moram dois, três, e só um pode receber visita. Quem já tá lá há muito tempo é que tira. Muita das vezes chegava uma visita minha e ficava no corredor.”

O consumo de entorpecentes dentro das cadeias é tido como uma estratégia para lidar com as condições do cárcere, como a exposição frequente à violência, o isolamento e falta de perspectivas quanto ao futuro. “Eu entrei lá e me viciei mais”, disse.

Além de ser tornar cada vez mais dependente do vício, começou a integrar o comércio interno do tráfico, vendendo drogas dentro da cadeia. Chegou a entrar em conflito e ser ameaçado por outros internos por questões relacionadas ao tráfico. “A cadeia, ela te envolve de uma maneira que quando tu percebe tu tá no crime. Porque eu já tava vendendo droga, já tava me envolvendo cada vez mais. E envolvendo até pessoas aqui fora. Mandando gente buscar droga em tal lugar. Eu briguei várias vezes lá dentro, todos os motivos foram por causa de droga. Todos.”

Mauro sofreu ameaças quando estava envolvido no tráfico. Sua única saída para garantir a sobrevivência dentro da cadeia foi ter que se submeter à hierarquia das gangues, que lutam para controlar o tráfico de drogas na prisão. “Tinha um rapaz lá, que me viu como eu tivesse dinheiro ou cara de traficante, e ele exigiu que eu desse uma droga pra ele. Como eu não dei, quase ele me mete a faca. Lá tem muitas regras que só favorecem uns, os grandes, os que têm nome. É praticamente obrigado. A droga tá contigo 24 horas. Do teu lado tão consumindo droga. Isso vai te envolver, querendo ou não vai te envolver”, destacou.

O apoio constante da família e o sonho de voltar ao lar o motivaram a aguentar toda a aflição. “Não chorava pra pessoa ver, mas chorava por dentro. Porque aqui tava a minha família, tava meus dois filhos, e principalmente um que era adolescente, porque ele podia pegar isso pra ele e querer fazer a mesma coisa. Lá tem muita gente abandonada, mas eu não fui uma dessas pessoas. Graças a Deus, eu sempre tive o apoio da minha família. Do meu pai, da minha esposa, eu tive muito apoio deles”, disse.

A pena foi de 3 anos e 2 meses. Mauro define com uma frase a experiência vivida no cárcere: “Ali, eu costumo dizer pra muitas pessoas que é um mundo diferente. Só quem tá lá sabe. Um dia lá é um ano, você pode ter certeza”.

Vinte e nove dias depois de ter deixado a cadeia, Mauro já estava trabalhando de carteira assinada. Algo raro para a maioria dos egressos do sistema penitenciário no Brasil. Daí em diante, começou a trilhar uma história de sucesso e superação.  No caso de Mauro, ele atribui a um milagre divino, devido à sua fé.

“Depois que eu saí, não foi difícil. Por que não foi difícil? Porque eu determinei dentro de mim que eu ia arrumar um emprego. Eu falei pra mim mesmo: ‘Eu sei que eu saí do cárcere, mas eu vou conseguir’. Fui atrás de emprego e coloquei currículo em várias empresas. Três me chamaram e eu escolhi uma que eu podia me encaixar. E graças a Deus foi tão rápido, que eles não me pediram antecedentes criminais. Acho que se eles soubessem, eu não ia conseguir. Eu não menti, só que também não falei nada.”

Mauro estava escrevendo uma nova história. De ex-presidiário a um empreendedor de sucesso. Ficou sete meses na empresa, e ao receber o dinheiro da indenização, cerca de três mil reais, conseguiu financiar uma moto, começou a trabalhar como mototaxista e a vender vales digitais. Guardou dinheiro, e hoje é dono de uma arena de futebol e ao lado fica sua lanchonete. Nas horas livres ainda é motorista de aplicativo.

 “Ainda tem as pessoas que me olham assim com um pouco de receio, de preconceito. Mas hoje com essa lanchonete que eu abri aqui tenho visto famílias lanchando aqui, que me viram no mundo do crime, que passavam por mim e não falavam comigo por preconceito. Eu converso com as famílias, todos me tratam muito bem. Eu me sinto muito orgulhoso de conversar com essas pessoas, que antes me olhavam com outros olhos. Estão me vendo hoje e falando: ‘Égua, esse homem aí, conseguiu vencer trabalhando’.”

Por Caroline Monteiro.

Antônio, 53 anos: “O luxo do crime é envelhecer, porque a maioria morre jovem. Então eu tenho esse luxo.”

Ele ainda não se encontra livre e longe das grades do cárcere. Entretanto, possui novas perspectivas e planos para quando deixar a cadeia. Seu maior desejo é que esse dia chegue o quanto antes. Sua vida foi transformada pela educação e pela paixão pela leitura.

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É na pequena e simples biblioteca do Centro de Recuperação Penitenciário do Pará (CRPP 1), no Complexo Penitenciário de Americano, em meio aos livros e carteiras, que ele encontrou um refúgio. A leitura lhe proporcionou oportunidades de, mesmo no cárcere, conhecer um novo universo e o fez aprender a pensar além dos muros que o cercavam. “Não há mudança sem educação. O homem sem educação não é socializado, não é um bom cidadão, não tem como. É por isso que o crime por si só tem carta branca pra destruir, porque 99% dos criminosos são analfabetos, semianalfabetos ou mal têm a 8° série.”

Antônio Carlos Almeida, 53 anos, natural de Ananindeua, município da Região Metropolitana de Belém, possui uma trajetória de vida como a de muitos meninos de periferias que, pela falta de oportunidades, vislumbram um modo de ganhar dinheiro se envolvendo com a criminalidade. Sem incentivos, odiava e sentia-se obrigado a estudar. Parou os estudos na sexta série do ensino fundamental, com 16 anos de idade. “Eu concluí a sexta série daquele jeito, família pobre, todos vocês sabem como funciona essa pobreza. O mundo do crime sempre foi bem presente na minha vida”, disse.

Foi preso pela primeira vez em 1995, aos 29 anos de idade. Voltou a ser preso em 2006, por assaltos, principalmente a bancos. Passou seis meses preso em Americano. Em seguida foi transferido para a recém-inaugurada penitenciária federal de segurança máxima em Catanduvas, localizada a 476 quilômetros de Curitiba, no Paraná, destinada exclusivamente a presos de alta periculosidade e líderes de organizações criminosas.

Como estava em estado de Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), em que ficava recolhido em uma cela individual por cerca de 22 horas, com saída apenas em casos de emergência para atendimento médico e com banho de sol de forma isolada, sua única companhia eram os livros.

Antônio começou escrevendo como uma forma de se ocupar, passar o tempo e amenizar a dor. Porém, pouco a pouco foi descobrindo o seu talento para a escrita. “Quando eu fui para o presídio federal do Paraná, a única coisa que tinha lá eram os livros e mais nada. Então aquela cadeia me ajudou porque eu comecei a ler e li mais de 200 livros. Só a bíblia eu li 7 vezes. Eu li muito, eu lia das 6 da manhã até às 10 da noite. Dentro do isolamento também comecei a escrever. Então pra eu passar 15, 20, 30 dias confinado, eu pedia papel e caneta e passava o dia escrevendo. Pensei em me matar duas vezes. Só não achei coragem, porque o sofrimento é muito grande”, revelou.

De aprendiz a escritor

O hábito da leitura constante, de diversas obras, não somente lhe trouxe reflexão e conhecimento como o fez aprender como funciona a estrutura de narrativas. Enriqueceu seu vocabulário e lhe estimulou a criar seus próprios textos em seus livros. “Por eu ler muito, eu entendi como era que escrevia, porque a gente vai lendo e eu fui entender como é que todo aquele texto e contexto funcionam. O diálogo, as personalidades que têm que ser encaixadas, a história que tem que ser estruturada. Eu fiquei pensando e comecei a escrever ainda mais”, contou Antônio.

Os livros são todos escritos à mão, com letras de fôrma, uns a caneta e outros a lápis. Antônio escreve primeiro em folhas separadas e depois passa a limpo nos cadernos de capa dura, mostrando toda sua dedicação e capricho. Ao folhear e ler alguns trechos, percebe-se a organização perfeita. Todos possuem prefácio, sumário e numeração em todas as páginas, idêntico a qualquer exemplar de livrarias. A letra perfeitamente legível e a excelente ortografia e gramática impressionam. Sem falar na linguagem saborosa e na forma de escrever que envolvem o leitor. Alguns possuem ilustrações, feitas também à mão, com lápis de cor, por um colega de cela.

Antônio conta que os amigos do presídio leem seus livros e ficam fascinados com as histórias. “Tem até briga pra ler primeiro. Eles dizem: se melhorar estraga”, contou sorrindo. Ele digita no computador da unidade, passa os arquivos para um pen-drive e entrega aos filhos nos dias de visita. Em sua casa os livros estão impressos, encadernados e devidamente guardados.

O que mais chama a atenção são as temáticas abordadas. Diferentemente do que se imagina, que os temas seriam relacionados ao mundo prisional, a vida no crime, ou algo do tipo, Antônio explica que preferiu se distanciar da questão do crime e abordar algo diferente da realidade vivida por ele. Um de seus livros, por exemplo, é direcionado ao público infantil.

“Eu tenho mais de 40 livros escritos, só que eu não escrevi nada sobre o crime, pela questão de ser pessoal, algo meu. Os irmãos que estão no cárcere querem escrever sobre a vida deles. Algo relacionado a isso. Mas eu não, eu não quis mexer com isso. É difícil ver um preso, privado de liberdade, passando por um sofrimento pessoal que é um inferno próprio, escrever algo que fuja do que acontece aqui dentro. Fiz variados livros para crianças, livros de terror, livros de comédia, ficção. Então no decorrer desses anos todos, é o que eu tô fazendo no cárcere”, informa.

A história de Antônio exemplifica o quanto a educação tem um poder de mudar vidas. Antônio se sente privilegiado por ter tido a oportunidade de concluir seus estudos na cadeia. Atualmente cursa faculdade de Teologia a distância, por meio da sala informática presente na unidade. Está feliz e muito esperançoso, porém lamenta que estes projetos não consigam abranger todos os presídios.

“Nessas cadeias todas que eu passei e até por outras, existem pessoas inteligentes. Existem diamantes a serem lapidados. Concluí a 8ª série, fiz o primeiro, segundo e terceiro anos do ensino médio. Fiz o Enem, passei duas vezes e veio a faculdade. Eu me formo ano que vem em Teologia. Tive a honra de conhecer os professores e coordenadores de educação, eu digo que eles foram como os meus pais no cárcere”, relatou.

Antônio relembra um dos momentos mais emocionantes de sua vida, estando ainda preso. O dia em que foi expor algumas de suas obras na 20ª Feira Pan-Amazônica do Livro, em 2016. “Eu apresentei alguns livros que já estavam digitados, como ‘O menino que voava’, que é um conto infantil, e ‘Pequenos defensores da escola’, que eu fiz relacionado com os meus filhos”, contou. “Um dia, eu acredito que vou conseguir lançar um desses livros. Eu só preciso que alguém pegue, analise, pra dizer se dá, se não dá, se precisa de melhorias. Eu tenho um vasto material, e eu preciso de um incentivo, e de poder dizer pra mim mesmo: ‘Agora vou terminar minhas histórias porque vai ter alguém que vai acreditar e vai lançar’.”

Antônio sonha em se voluntariar para orientar e contar sobre sua experiência de vida para outras pessoas, no caso aqueles que são tidos como “o futuro”. “Uma das minhas metas é ir nas escolas, com datashow e juntar um auditório de jovens e adolescentes. E poder falar pra eles o que é o crime, como começa e como termina. Isso me queima por dentro. Então se eu puder, eu vou fazer isso”, diz.

Expectativa de volta

Pai de oito filhos e avô de seis netos, Antônio não vê a hora de voltar a viver com a família. “O meu pai morreu em novembro de 2009. Em agosto foi me visitar no CRA III e eu me abracei com ele e prometi: ‘Meu pai, o dia que eu sair, nunca mais alguém me põe uma algema na minha vida’. Essa foi uma promessa que eu fiz pra mim mesmo, pra minha família. Eles podem me ter como um problema, mas eu não sou mais um problema pro cárcere, eu sou a solução do problema.”

Ivanilsa Aguiar, 44 anos, é técnica pedagoga e chefe de reinserção social no CRPP I. Ela acompanha a transformação de Antônio há quatro anos e não esconde a felicidade ao falar do aluno. “O seu Antônio é um grande exemplo para a gente, porque ele fez o fundamental, terminou o médio e agora tá na faculdade. Ele é um exemplo de mudança, de transformação, e isso tudo se deu através da educação. Eu acredito naquilo que eu faço, e vejo um pouco do meu profissionalismo espelhado nisso. Quando a gente vê uma pessoa dessa transformada, percebe que tudo valeu a pena”, afirmou, orgulhosa.

Por Caroline Monteiro.

De acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), do Departamento Penitenciário nacional (Depen), atualização de junho de 2017, no primeiro semestre daquele ano, o país tinha 726 mil presos - números do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), em 2019, chegam a 812 mil. O Estado do Pará aparece com cerca de 16 mil no total de sua população prisional, e com 6 mil presos sem condenação. Esse processo corresponde a enorme superlotação.

O atual cenário de rebeliões, fugas e aumento sucessivo da criminalidade e da violência entre presos, em grande parte, é consequência da superlotação crescente dos últimos anos e das condições humilhantes em que se encontra o sistema prisional.

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O sistema prisional brasileiro, quase que em sua totalidade, não proporciona um suporte devido para que o indivíduo em reclusão possa obter uma mudança de vida e consiga se estabelecer profissionalmente quando sair do cárcere. Na maioria das cadeias são disponibilizadas atividades para que o interno aprenda algo novo, como artesanato, corte e costura e jardinagem. Porém, segundo o Infopen, em 2016, apenas 16% da população prisional exercem as atividades de trabalho e estudo, o que equivale a pouco mais de 106 mil pessoas.

Os projetos voltados para a ressocialização de reeducandos do Sistema Penal do Estado do Pará são os seguintes:

Reinsérie - Pograma institucional que engloba todos os projetos de reinserção social da Susipe. Desenvolvido pela Diretoria de Reinserção Social (DRS), o programa tem a finalidade de organizar as ações de reinserção e garantir o caráter institucional, a fim de alcançar resultados satisfatórios. O Reinsérie foi criado em fevereiro de 2019.

Leitura que Liberta - Projeto que oferece remição penal por meio da leitura. O Leitura que Liberta busca ajudar os internos que não estão sendo beneficiados por atividades educacionais formais ou laborais no cárcere. A cada livro lido em um período de 30 dias (prazo que pode ser prorrogado por mais 15 dias), são remidos 4 dias da pena total do reeducando. As obras podem ser literárias, clássicas, românticas, científicas e filosóficas. Vale ressaltar que há um limite de 12 leituras por ano, o que totaliza 48 dias a menos na pena.

O projeto é uma iniciativa da Susipe, Defensoria Pública do Estado e Secretaria de Estado de Educação (Seduc). Em quatro anos, já alcança 10 presídios do Estado e atualmente assiste 184 reeducandos. Ao todo, o Leitura que Liberta já beneficiou 723 internos de todo o sistema penal.

Arca da Leitura - Neste projeto, uma estante móvel com cerca de 150 livros fica sob a responsabilidade de um interno escolhido por cada unidade. O custodiado recebe treinamento técnico em biblioteconomia e exerce a função de monitor realizando atividades de empréstimo, devolução, inserção dos livros no acervo da biblioteca e preservação de todo material existente.

A ideia do Arca da Leitura é viabilizar o acesso à leitura dentro do bloco carcerário. Dessa forma, todos os detentos podem ter contato com as literaturas. O monitor movimenta a biblioteca dentro do bloco carcerário, oferecendo e fazendo empréstimo de livros. O acervo é formado por livros de disciplinas obrigatórias e literárias, além de revistas de conteúdo informativo.

Hoje, o projeto conta com 22 monitores de bibliotecas móveis, que são supervisionados pelas coordenadoras pedagógicas de cada casa penal. As estantes do projeto Arca de Leitura são produzidas pelos internos, em ação da Coordenadoria de Trabalho e Produção da Susipe, nas marcenarias instaladas nos próprios presídios do estado.

Projeto Nascente e “Vem Pra Feira” - O projeto Nascente oferece 28 vagas de trabalho aos internos da Colônia Penal Agrícola de Santa Izabel (CPASI) para atuação em apicultura, agricultura, horticultura, fruticultura, plantas ornamentais, viveiro de mudas, casa de farinha, criação de galinha caipira, palmípedes, suinocultura e outros. Além de capacitação, os internos têm a oportunidade de remir suas penas por meio do trabalho.

Os produtos produzidos na Colônia Penal Agrícola de Santa Izabel (CPASI), por meio do projeto Nascente, são comercializados no “Vem Pra Feira”, onde são vendidos em média 20% mais baratos em relação ao preço dos supermercados tradicionais da cidade.

Projeto Impressione - Projeto de marcenaria voltado à capacitação de internos do regime fechado em serviços como produção, confecção e montagem de peças e mobílias em madeira e MDF. As atividades são realizadas em um espaço específico dentro do Centro de Recuperação do Coqueiro (CRC) e na Central de Triagem Metropolitana II (CTM II), ambas localizadas em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém (RMB).

Conquistando a Liberdade e Papo di Rocha - O Conquistando a Liberdade é promovido pela Susipe em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), Programa Pro Paz (agora Pará Paz) e Polícia Militar. O projeto foi um dos 18 premiados no INNOVARE 2013, prêmio destinado a práticas inovadoras para a Justiça no Brasil, que torna a iniciativa paraense referência nacional na reinserção social de detentos.

O projeto é desenvolvido em escolas da rede pública estadual de ensino, nas quais os internos fazem serviços de limpeza, pintura, poda de árvores, reparos nas redes elétricas e hidráulicas e consertos de cadeiras e mesas. Participam do projeto internos dos regimes fechado e semiaberto, que reduzem um dia da sua pena a cada três dias trabalhados.

O Papo di Rocha objetiva conscientizar os estudantes das escolas da rede estadual de ensino sobre a importância de uma cultura de paz e prevenção visando à não violência no ambiente escolar. O projeto é considerado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) como referência na reinserção social de detentos no país.

Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (COOSTAFE) - A COOSTAFE é a primeira cooperativa formada exclusivamente por internas do sistema penitenciário no Brasil. É um projeto de economia solidária para as reeducandas. Criada em fevereiro de 2014, por portaria interministerial do governo federal, a COOSTAFE oferece às internas a oportunidade de ocupar o tempo, aprender uma profissão e remir pena através do trabalho.

Por meio da economia solidária, o projeto garante, às detentas, acesso ao trabalho e à geração de emprego e renda. Atualmente, as 25 internas envolvidas trabalham diariamente na produção de artesanatos, como pelúcias, crochês, vassouras ecológicas, sandálias e bijuterias, entre outros produtos que são comercializados no projeto “Vem Pra Feira”, em shoppings e em praças públicas de Belém, Ananindeua e Marituba. A taxa de reincidência criminal das presas que passaram pela cooperativa é zero.

Por Caroline Monteiro.

A polícia investiga um trio suspeito de realizar o golpe 'boa noite, Cinderela', que resultou no prejuízo de aproximadamente R$ 8.100 para um homem, de 56 anos. O metroviário conheceu a suspeita através de um aplicativo de relacionamento e foi com ela para um motel, no Barro, Zona Oeste do Recife. Após seis horas, ele acordou sem o cartão de crédito e com apenas R$ 23.

Segundo informações, era por volta do meio-dia quando o casal chegou ao motel. A vítima foi tomar banho e ao sair a golpista teria insistido para que tomasse uma cerveja. Eles mantiveram relações sexuais, mas o homem acordou atordoado, por volta das 18h.

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Às 15h, ela pagou a conta de R$ 110 com o cartão roubado e outros dois suspeitos chegaram de táxi para auxiliá-la na fuga. "Ele tava com R$ 123 na carteira, ela levou R$ 100 e deixou os R$ 23", informou o delegado Carlos Couto.

"Deram entrada no motel de meio-dia e ela deixou a suíte às 14h, mas saiu do motel só às 15h; quando os suspeitos foram resgatar ela", confirmou Couto. Juntos, os criminosos foram até um supermercado e compraram dois smartphones e outros produtos. O prejuízo não foi maior porque a administradora do cartão não autorizou mais compras.

O caso ocorreu no dia 28 de dezembro do ano passado, contudo, a vítima só procurou as autoridades em janeiro. Devido à demora para registrar a ocorrência, não foi constatada a substância a qual a vítima foi submetida. "Ele veio na delegacia algum tempo depois e o sedativo, provavelmente, já devia ter saído do corpo", destacou;

Um dia após cair no golpe, ele ainda estava com sintomas da substância e foi com a esposa para uma unidade de saúde. Um dos homens já foi identificado e câmeras de monitoramento do estabelecimento vão auxiliar na investigação, apontou o delegado Carlos Couto.

Manu, 44 anos: “A minha experiência de estar presa...eu aprendi muita coisa. Aprendi que a liberdade da gente não tem preço, nem com todo o dinheiro do mundo. Porque o que tu vê, o que tu passa dentro de uma cadeia, é uma coisa que tu não deseja nem para o teu pior inimigo.”

De cabelos presos em um coque, batom vermelho, sempre com um sorriso. Está sentada em um banco de cimento do Bosque Rodrigues Alves, em Belém, Manuela, de 44 anos, mais conhecida como Manu. O fim de tarde está ensolarado, mas com algumas nuvens anunciando a chuva. A entrevista começa após o expediente. Ela trabalha no Bosque há três anos, em um projeto de ressocialização da Susipe (Superintendência do Sistema Penitenciário do Pará).

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Por oito anos esteve entregue à vida do crime, fazendo o transporte de entorpecentes de Manaus para Belém, Fortaleza, Imperatriz, no Maranhão, e até Guiana Francesa e Itália. Em uma dessas viagens, trabalhando como “mula” (expressão dada a quem carrega a droga), Manu foi detida pela polícia, em Belém, com 12 quilos de pasta base de cocaína e condenada a doze anos de prisão.

“Foi o surgimento de dinheiro fácil, na verdade. E de adrenalina também. Eu conheço pessoas no mundo do tráfico que entraram por influência de amigos, isso também aconteceu comigo”, diz.

Manu ainda cumpre pena domiciliar, que se encerra somente em 2022. Voltou para a sociedade e para sua vida normal há três anos. Passou cinco anos presa no regime fechado, e dois anos no semiaberto.

A vida na prisão não é nada fácil. Diferentemente do que muitos bradam em discursos nas redes sociais e em conversas do dia a dia, de que há privilégios e mordomias nas cadeias, lá dentro o “bagulho é doido”. Higiene mínima, ambiente totalmente insalubre, disputa de camas e espaço para dormir, sem falar na violência policial.

A situação piora quando o indivíduo em questão, dentro do cárcere, é homossexual. A primeira “ala gay” no Brasil foi criada em 2009, com o objetivo de evitar práticas de violência e garantir a integridade física dos homossexuais. Em 2014, foi determinada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos a ampliação da medida para todos os presídios do país, porém não é o que de fato acontece.

No Pará, há somente celas exclusivas, sem alas. Pesquisadores consideram a ação como algo paliativo, em razão de um contexto de fragilidade e insegurança nas prisões brasileiras.

Durante sua passagem pelo sistema penitenciário, de 2011 a 2017, Manu, que é mulher transgênero, vivia em uma cela com cerca de 35 homens. Nesse período, o presídio em que estava custodiada, no CTM 1 do Conjunto Satélite, periferia de Belém, não possuía as celas somente para homossexuais. Manu foi exposta a todo tipo de constrangimento, humilhação e discriminação. Ela relata que chegou a sofrer tentativa de abuso sexual.

“Na minha vida dentro do cárcere, eu enfrentei e vi muita coisa. Não foi fácil pra mim, que sou homossexual, conviver no meio de 400 presos. No meio de muitos homens eu sofri preconceito, sofri ataques. Então eu tive que me impor, tive que pôr minhas regras. Tive que me respeitar e aprender a ser respeitada como sou até hoje. Foi bem difícil, eu morava com 35 homens dentro de uma cela 6 por 8, e só eu de homossexual dentro”, relata.

Ela ainda conta que só se sentiu segura e tranquila quando casou na cadeia com um chefão do tráfico. O casamento, no entanto, não foi nos moldes tradicionais, com cerimônia, como acontece na maioria dos casos. Eles apenas passaram a viver juntos. Depois de um certo tempo, Manu descobriu que o companheiro era portador do vírus HIV. Após seis anos e seis meses se separaram, mas os dois mantêm uma amizade até hoje.

“Já sofri ameaças, em termo de me pegarem para fazer alguma coisa, mas sempre fui precavida. Casei com um homem muito forte no tráfico de drogas, então eu tive a proteção dele. A gente sempre se preveniu, mas só depois ele foi me contar que era portador do HIV. Fiquei assim mesmo, porque eu gostava dele. Casei lá dentro da cadeia.

Ainda que contasse com o cuidado e segurança por parte do marido, em muitos momentos ela se via sozinha. Totalmente indefesa. À mercê da violência. Era quando a Tropa de Choque visitava o presídio.

A ida à cadeia, de surpresa, era para realizar revistas, em busca de armas e drogas. Todos os internos ficam nus. Manu, sendo mulher transgênero, tem seios. No ato da revista policial, tirava toda a roupa, menos uma miniblusa para não se sentir tão desprotegida e exposta aos olhares de centenas de homens. Não adiantava. Era obrigada a tirar a peça.

“Quando a Choque invade lá dentro, quando ela entra de madrugada, tu tens que sair nu. Eles entram invadindo, quebrando tudo, batendo nos presos. A gente fica pelado numa área muito grande, um encostado no outro. Eles vêm para fazer a revista, mas no meio dessa revista nós somos espancados. A gente leva tiro de borracha e os cachorros que eles colocam para assustar e amedrontar, os rottweilers, os pitbulls, às vezes ainda mordem. Tem muitas coisas que eu já passei. Policiais me deixavam por último só para me bater. Rasgavam minha blusa. Como eu sou mulher trans e tenho peito, então eu não podia sair toda nua. Mas a tropa de choque, toda vez que ia lá, eles queriam me puxar e rasgar minha roupa. Um deles saiu me arrastando e me deu porrada de cassetete”, revelou.

“Então é uma coisa que você se revolta. Só não aconteceu mais porque eu tinha advogado e falei que queria que ele fosse lá nos Direitos Humanos. Porque querendo ou não, quando invadem o cárcere privado, têm que saber que tem pessoas diferenciadas no meio. Que no caso são os homossexuais, que não têm defesa para nada”, conta.

Abandono e preconceito

Manu sabe muito bem o que é lidar com o preconceito e abandono. Na infância, o pequeno Reginaldo da Silva Costa, nascido no interior do Maranhão, foi expulso de casa aos 12 anos de idade pelo pai. Os trejeitos e o comportamento afeminado, que indicavam a homossexualidade, motivaram o pai a tomar atitude drástica: tirá-lo do convívio com a família, pais e seis irmãos.

Ao ser obrigado a sair de casa, Manu perambulou e morou na rua durante a infância. Lutou para sobreviver. Comeu comida do lixo. Foi criado pelo mundo. Não teve o momento de brincadeiras, de ser criança. Já não era mais Reginaldo, adotou um novo nome: Manuela. Dormia em casas, prédios e carros abandonados, ao relento. Uma criança cuidando de outras crianças: parou de estudar aos 12 anos e começou a trabalhar como babá. Em troca de comida e de um lugar para ficar, começou a namorar um homem mais velho, aos 16 anos, mesmo não gostando. Um senhor com idade para ser seu pai.

“Hoje em dia eu já tenho contato, mas é eles lá e eu aqui. Depois de 30 anos reencontrei todo mundo de novo. Eu não tive amor por eles. Aquele amor que tu tens por um pai, por uma mãe. Não tive porque eu fui criada só. Pra mim eles são estranhos. Eu queria só um perdão da minha mãe, dela dizer: ‘Minha filha eu errei,’ mas nunca tive. Me sinto triste porque todo mundo sente falta de sua família, mas no momento eu não posso contar com mais nada. É só eu e pronto”, contou com um semblante de tristeza.

Manu fugiu para Manaus aos 17 anos. A nova cidade parecia trazer um ar de recomeço para sua vida. Foi lá que começou a cortar cabelo. Estudou e aprendeu mais sobre estética e em seguida conseguiu montar seu próprio negócio, um salão de beleza. Arranjou um namorado. Tudo parecia ir bem, parece que de fato tinha conseguido vencer as adversidades do passado e viver uma nova história. Até descobrir que seu namorado era envolvido com o tráfico de drogas. O momento da descoberta foi com a polícia batendo em sua porta. Já era tarde. Foram encontrados entorpecentes dentro de sua mochila. Foi levada junto com ele. Ficou sete meses presa.

No tempo em que ficou presa pela primeira vez, fez amizades e conheceu como funciona o mundo do crime e se jogou de cabeça no tráfico de drogas. Após deixar a cadeia, começou a trabalhar como “mula”. Viajava para outras cidades entregando a droga. Ficou oito anos nessa ocupação, até ser presa novamente. Dessa vez, o tempo enclausurada em uma cadeia seria bem maior. Foi condenada a doze anos de prisão.

Durante o período em que esteve presa, Manu começou a desenvolver atividades dentro da cadeia, como cortar o cabelo dos internos, devido à sua experiência quando era cabeleireira. Também fazia artesanato. Manu conta que as tarefas foram fundamentais para lhe tirar da ociosidade dentro da cela e ocupar seu tempo. Além de preencher o vazio e tristeza que sentia por não receber visitas.

“Me ajudou muito, porque eu não sofri tanto como os outros sofreram. De ficar o tempo todo encarcerado atrás das grades. Eu tinha uma coisa para ocupar minha mente. Diferente dos outros que ocupavam a mente só em pensar besteira, em pensar em suicídio, pensar em muitas coisas erradas”, disse.

Após o término da pena no regime fechado e saída da prisão, começou a procurar emprego, porém fracassou. Afinal, quem daria oportunidade para uma pessoa que já esteve presa? Após uma entrevista de emprego, ao puxar a ficha criminal de um candidato (a), o preconceito e o medo são fatores decisivos. Foram longos seis meses à procura de uma vaga, mas graças ao laço de carinho e amizade que criou com alguns funcionários da Susipe, no tempo em que esteve presa, conseguiu um emprego ofertado por eles. Começou a trabalhar no setor de serviços gerais, na sede da Susipe, limpando as salas e escritórios.

Após um ano e três meses, foi remanejada para um novo trabalho, no qual permanece até hoje. Ao todo são 17 ex-presidiários que trabalham no Bosque Rodrigues Alves, exercendo diversas funções. Manu faz de tudo um pouco. Realiza a limpeza de canais, limpeza das trilhas e ajuda na cozinha. Ela conta que o projeto “Ressocializando” foi uma verdadeira transformação em sua vida, em razão de lhe permitir voltar a sonhar novamente e viver de forma digna.

“Me sinto muito feliz porque foi uma oportunidade que me proporcionou muitas coisas boas. Hoje eu moro em um apartamento bom, pago meu aluguel. Hoje em dia vivo bem, vivo feliz”, diz.

Manu se preocupa com o futuro de projetos como esse, que têm o objetivo de oferecer uma melhor qualidade de vida a ex-presidiários. “Apesar de serem poucos, mas os poucos que têm já ajudam bastante. Os presos têm medo de os projetos acabarem. Ninguém sabe como vai ficar, mas eu acho que não vai acabar, porque facilita muito o Estado. Não tem aquela coisa de carteira assinada, direitos trabalhistas, não tem nada disso. O Estado ganha e o preso também ganha”, afirmou. 

A lenta mudança de vida

“Muitos querem uma oportunidade, passam necessidade, muita gente não abre porta de emprego. Muitos têm medo de contratar um reeducando. Preconceito de contratar uma pessoa que já foi presa. Eu acho que deveriam dar uma oportunidade para as pessoas, porque todos querem mudar. Todo mundo merece uma segunda chance. O que mais me toca é isso, de oportunidade de trabalho. A questão de voltar, a gente volta aos poucos, conquistando a confiança das pessoas. Contando a verdade que a gente já foi preso, que a gente passou por isso e aquilo. Isso é uma luta. Uma batalha que a gente tem até hoje, de enfrentar esse preconceito de ter sido preso.”

Com tudo o que passou, Manu adquiriu alguns traumas devido a situações de extremo sofrimento e crueldade. Precisou tomar remédios para amenizar a dor emocional. Contudo, carrega no olhar a esperança de um futuro melhor e pretende retomar sonhos que foram interrompidos. “A minha perspectiva de vida agora é tocar a minha vida pra frente. Montar o meu próprio negócio, comprar a minha casa. Eu quero abrir o meu salão de novo e me inscrever no ‘Minha Casa Minha Vida’.”

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Três jovens, entre 19 e 21 anos, foram presos após retirar 512 comprimidos de ecstasy na agência dos Correios, no bairro do Bongi, na Zona Oeste do Recife. Segundo a Polícia Federal (PF), um presidiário da Penitenciária Barreto Campelo, em Itamaracá, no Grande Recife, foi o mentor da transferência do entorpecente, enviado do Rio de Janeiro.

Com as informações sobre o envio da droga sintética, a PF monitorou a encomenda e montou campana no aguardo do destinatário. Por volta das 10h, da última sexta-feira (17), os três suspeitos foram retirar o pacote, quando foram autuados. Um motorista, de 20 anos; um estudante, de 19; e um descarregador de caminhão, de 21, foram presos em flagrante. Todos residem no bairro de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes.

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“O estudante dirigiu-se à agência dos Correios, foi tirar [o entorpecente] e quando ele estava saindo com a encomenda, nossos policiais fizeram a abordagem e pedimos para ele abrir [o pacote]”, explicou o chefe de comunicação da PF Giovani Santoro.

O trio foi acusado de tráfico interestadual de entorpecentes e associação ao tráfico. Caso condenados, podem receber penas que variam de 3 a 25 anos, além de multa.

Giovani Santoro ressaltou o envolvimento de um detento, que seria o suposto líder do grupo. “As investigações apontam que essa droga pertence a um presidiário que atualmente está cumprindo pena na Barreto Campelo. Ele seria o mentor de ter solicitado essa droga do Rio de Janeiro para Pernambuco”, pontuou.  

A PF vai unir esforços à autoridade penitenciária para identificá-lo. As informações serão repassadas à polícia carioca para que o remetente da encomenda seja capturado.

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