França cancela negociações sobre imigração

O presidente Macron diz que Boris Johnson não é 'sério'

sab, 27/11/2021 - 08:18
Simon Dawson / Nº 10 Downing Street O presidente da França, Emmanuel Macron e o premiê do Reino Unido, Boris Johnson Simon Dawson / Nº 10 Downing Street

O presidente da França, Emmanuel Macron, disse nesta sexta-feira, 26, que o premiê do Reino Unido, Boris Johnson, deveria "levar a sério" a crise migratória no Canal da Mancha ou "permanecer calado". O dia de fúria de Macron começou após Johnson publicar um plano de ação com cinco pontos no Twitter, em vez de recorrer aos canais diplomáticos tradicionais. "A comunicação de um líder com o outro, sobre questões tão graves, não pode ser feita por tuítes", disparou o francês.

No plano, Johnson sugere que a França receba de volta todos os imigrantes apreendidos em praias britânicas após a travessia do Canal da Mancha. Gabriel Attal, porta-voz do governo francês, chamou a carta do premiê britânico de "medíocre em termos de conteúdo e inapropriada no que diz respeito à forma". "Estamos cansados dessa conversa fiada e da terceirização de problemas do Reino Unido", disse Attal, em entrevista à BFM TV.

A irritação de Macron fez o tom de agressividade entre os dois vizinhos subir ontem mais um degrau. Mas não ficou apenas na retórica. A França também retirou o convite à ministra do Interior do Reino Unido, Priti Patel, para participar de uma discussão com vários países sobre o assunto no domingo. O ministro do Interior francês, Gérald Darmanin, disse que a reunião com Holanda, Bélgica e Alemanha está de pé, mas sem a presença dos britânicos.

TRAGÉDIA

A mais nova troca de acusações entre os dois países começou na quarta-feira, após a morte de 27 imigrantes que se afogaram perto de Dunquerque, a caminho da Inglaterra. Paris reclama que o Reino Unido atrai imigrantes ilegais com uma política frouxa de fiscalização. Londres diz que autoridades francesas não têm se empenhado em conter os botes que partem de suas praias.

Macron e Johnson, segundo analistas, estariam se aproveitando da crise para marcar pontos políticos. O presidente francês disputa a reeleição em abril e precisa conter o avanço da extrema-direita, que deve explorar a questão migratória na campanha.

O premiê britânico enfrenta um fogo cerrado de radicais conservadores e nacionalistas, como Nigel Farage. Para eles, o objetivo do Brexit era retomar o controle das fronteiras. Em vez disso, milhares de imigrantes têm chegado às praias do país sob o olhar perdido de Johnson.

A oposição aproveitou a crise para atacar o premiê. Nick Thomas-Symonds, um dos líderes do Partido Trabalhista, disse que publicar uma carta no Twitter foi um "erro de julgamento grave". "Retirar o convite à ministra do Interior é uma humilhação para o primeiro-ministro, que perdeu completamente o controle da situação no Canal da Mancha", disse.

DISPUTAS

A questão migratória é apenas um capítulo na rápida deterioração da relação entre os dois vizinhos. Nos últimos meses, França e Reino Unido vivem às turras em disputas relacionadas ao Brexit, principalmente sobre licenças de pesca.

Nesta sexta, pescadores franceses ameaçaram bloquear o acesso a três portos no Canal da Mancha, e também ao Eurotúnel, para exigir a concessão rápida de autorizações pesqueiras, previstas após a saída dos britânicos da UE.

Macron também não engoliu o acordo militar que Johnson costurou com os EUA para fornecer submarinos nucleares para os australianos. A França, que tinha um contrato para a venda de submarinos convencionais à Austrália, teve um prejuízo de US$ 66 milhões. Paris considerou o episódio uma "punhalada pelas costas". (Com agências internacionais)

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