Filme “A Baleia” provoca debate sobre abandono afetivo

Especialistas alertam que ausência dos pais é prejudicial ao desenvolvimento de crianças e adolescentes

qua, 05/04/2023 - 11:30
Internet/Divulgação Personagem Ellie, interpretada por Sadie Sink, abre debate sobre ausência dos pais na relação familiar Internet/Divulgação

A produção cinematográfica “A Baleia”, que rendeu o oscar de “Melhor Ator” para Brendan Fraser, conta a história de Charlie, um professor de literatura acometido por obesidade severa e que vive recluso, longe dos amigos, familiares e da filha Ellie, personagem de Sadie Sink, da qual se mantém distante desde que ela tinha apenas oito anos. Na trama, a história de Charlie aborda temas como obesidade, depressão, homossexualidade e o abandono afetivo, com a discussão sobre as consequências da ausência afetiva na vida de crianças e adolescentes. 

No filme, mesmo se mantendo afastado por escolha própria, o pai de Ellie continuou a contribuir financeiramente para o sustento da filha. Mas a postura dele causa o seguinte questionamento: será que somente pagar a pensão alimentícia é suficiente para o desenvolvimento de uma criança psicologicamente saudável?

Segundo a advogada Melissa Maciel, especialista em Direito da Família, os deveres dos pais em relação aos filhos vão além de prover o sustento financeiro. “Os pais possuem o que nós denominamos no direito das famílias como poder familiar, que se configura como conjunto de direitos e deveres em relação aos filhos menores, divididos em dois blocos: material e emocional. Material é o que todo mundo conhece, que é de prover a subsistência através da pensão, e o emocional está atrelado ao dever de cuidado e criação dos filhos. Toda criança, e o adolescente, para se desenvolver de forma plena, precisa desse amparo afetivo”, argumentou.

Negligenciar afetivamente os filhos, não prestar assistência psíquica, moral e social ou omitir cuidados referentes à criação e educação são práticas configuradas como abandono afetivo. Ainda que não seja crime, a prática  pode levar o(a) genitor(a) ausente a pagar uma indenização, com base no Artigo 227 da Constituição Federal, que prevê como dever da família proteger crianças e adolescentes de toda negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. 

"Ninguém é obrigado a dar afeto. Só que existe um dever de prover o amparo psicológico para garantir que esse menor cresça de forma plena. Os pais possuem um dever de preservar os filhos de qualquer negligência ”, afirmou Melissa. 

Em “A Baleia”, Ellie cresceu assustada, arredia e com dificuldade de se relacionar com as pessoas à sua volta, sinais de possíveis traumas causados pelo abandono paterno e que prejudicaram o seu desenvolvimento psicológico. Na vida real, uma jovem de 20 anos, que preferiu não ter a identidade revelada, relatou que, apesar de não ter ressentimentos, carrega muitas dores devido à ausência do pai. “Eu sinto que se eu tivesse o amor de pai, não teria desencadeado tantos gatilhos e seria uma pessoa mais forte, sinto que a maior parte do meu dos meus problemas psicológicos são por conta disso. Nunca tive e não tenho mágoa, mas dentro de mim sinto falta. Eu queria ter tido um amor paterno, acho que toda pessoa que quer ter o amor de um pai presente”, narrou. 

Assim como no filme, a jovem contou que recebe pensão alimentícia do genitor até hoje. No entanto, ela sente falta da presença física e do afeto. “Na minha vida ele só é presente de forma financeira, nunca deixou faltar nada e sempre que pode, ajuda. E pra falar a verdade, eu entendo que isso é uma forma de amor, ele está amando do jeito dele e acha que colocar a comida na mesa é uma forma de amor. Só que não é o suficiente, não supre a necessidade, não não supre o amor, o carinho, o cuidado”, lamentou. 

Crianças e adolescentes com pais ausentes podem desenvolver baixa autoestima, insegurança, medo excessivo, dependência emocional e, em alguns casos, depressão. De acordo com a consteladora familiar, hipinoterapeuta conversacional e mentora sistêmica Tayna Caroline, estar sempre na defensiva, apreensivo e ter baixa tolerância à frustração também podem ser marcas do trauma. 

“Essa pessoa pode se tornar, por exemplo, muito passiva. Imagina que ela tem um desafio profissional de se expor a oferecer o seu serviço para alguém. Então, ela vai estar em contato com uma experiência na qual pode receber um não ou se sentir frustrada. Para não entrar em contato com essa memória de dor, ela desiste de fazer esse movimento, ela desiste de tentar”, citou Tayna.

Além disso, um adulto com feridas de abandono na infância também pode refletir isso no campo dos relacionamentos afetivos. “Às vezes ele vai entrar em polo ou ativo ou passivo na relação. No polo passivo é a pessoa dependente, que precisa dos outros pra fazer tudo e não faz nada sozinha. Ou a pessoa entra num polo ativo, em que ela é uma doadora compulsiva, que faz sempre mais na relação. Ela se esforça muito para oferecer razões para a outra pessoa não ir embora, como um dia já fizeram lá atrás”, pontuou.

A terapeuta destacou, ainda, que o abandono também pode acontecer por parte de pais que estão presentes fisicamente, mas não atendem às necessidades emocionais dos filhos. “Como consequência dessa experiência, muitas vezes a criança pode desenvolver um um recurso de dependência muito forte e, para não entrar em contato com essa ferida, com essa dor de abandono, ela começa a criar recursos. Uma pessoa que sofreu um trauma de abandono em algum período primário é geralmente mais comunicativa; você olha e consegue ler o que ela está sentindo, porque se torna uma pessoa muito expressiva, já que lá atrás ela precisou desenvolver esses recursos para que tivesse suas necessidades atendidas”, explicou.

No Brasil, o abandono paterno é uma realidade assustadora. Somente no primeiro semestre de 2022, mais de 86 mil crianças foram registradas sem o nome do pai na certidão de nascimento. O dado é ainda mais assustador se comparado ao de natalidade, já que 2022 também registrou o menor número de nascimentos dos últimos quatro anos. 

Por Kamilla Murakami (sob a supervisão do editor prof. Antonio Carlos Pimentel).

 

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