Gilson Matias, novo chefe da Regional Nordeste do MinC

Gestor conversou com exclusividade com o LeiaJá

por Felipe Mendes sab, 16/03/2013 - 16:07
Elizabeth Leal/LeiaJáImagens 'A primeira ação é chegar a 2020 com esse país tendo estabelecido o Sistema Nacional de Cultura' Elizabeth Leal/LeiaJáImagens

O Ministério da Cultura – MinC tem, no Recife, a sede da sua Regional Nordeste, que condensa a gestão cultural de sete Estados da região. Recentemente, houve uma troca na chefia da Regional, que passou a ser comandada pelo potiguar Gilson Matias. Com experiência em mobilização social e na área da educação, o gestor já foi o chefe de gabinete da Fundação José Augusto, no Rio Grande do Norte, entre 2007 e 2010 e estava lotado no MEC. Em entrevista exclusiva para o LeiaJá, Matias desenha quais as ações prioritárias em sua gestão, como vai lidar com as pressões e a relação entre os Estados, e sobre a não adesão de Pernambuco ao Sistema Nacional de Cultura.

Você vem de uma experiência bastante ligada à educação. Era inclusive do Ministério da Educação quando foi chamado para assumir a Regional Nordeste do Ministério da Cultura. De onde vem a sua interação com a cultura?

Na verdade, a minha história começa na cultura. Eu sou um brincante de Bambelô, também chamado de Pau furado. Quando a festa ia para a rua eu era um dos que se aliava à roda da dança (Bambelô é um tipo de coco de roda). Saí do interior – eu sou de São José de Mipibu – para estudar e, quando retornei, criei uma associação cultural de resgate das danças quase desaparecidas da cidade. Segundo Câmara Cascudo, nós tínhamos o melhor Bambelô e a melhor chegança da região. Nós começamos o movimento desta retomada na universidade e por aí acabei chegando à educação, quando fui chamado para ser professor. Mas sempre estive com o pé dentro da cultura. Em 2007 eu assumo a chefia de gabinete da Fundação José Augusto, órgão equivalente à secretaria de cultura do Rio Grande do Norte, e é quando eu entro com os dois pés na questão da cultura. Quando termina a gestão, fui convidado pelo MEC para ser o coordenador nacional do Plano de Mobilização Social pela Educação. Seis meses depois recebi a missão de vir ao Recife chefiar a Regional do MinC.

Quais as orientações que você recebeu da ministra Marta Suplicy quando foi chamado para assumir a Regional?

A primeira ação é chegar a 2020 com esse país tendo estabelecido o Sistema Nacional de Cultura. Não é fácil, porque você não pode chegar e dizer que tem que acontecer, tem que ir para o convencimento do gestor municipal e estadual para que façam a adesão. E a cada dois anos você tem uma mudança de gestor, hora municipal, hora estadual. Várias cidades do Nordeste fizeram a adesão, mas com a mudança de gestor o processo foi quase reiniciado. Outra missão é o Pronatec - Programa Nacional de acesso ao Ensino Técnico e Emprego, que vai atender a duas metas do Plano Nacional de Cultura: trabalhar a inclusão e a qualidade dos serviços. Educação e cultura são siamesas, não tem como trabalhar uma ação de educação sem cultura ou de cultura sem educação. Temos que trabalhar com essa visão pedagógica da coisa. Já estivemos em reunião com a Secult-PE para fechar a primeira ação do Pronatec para o Estado, com cursos na área de produtor cultural, de línguas e de moda. Outro ponto é o Programa Cultura Viva. Dia 25 de março estou indo a Brasília para trabalhar o redesenho que aconteceu no Cultura Viva em 2012.

No último ano, correu o boato de que se pretendia mudar a sede da Regional, calcado principalmente em uma briga de diferentes Estados do Nordeste por atenção. Há realmente este plano? Como você pretende equalizar as pressões e a relação entre os Estados atendidos pela Regional?

Não existe no Planalto essa conversa de mudar a sede. Pernambuco é uma grande expressão, isso não precisa nem se falar, e está no centro do Nordeste, então é muito mais fácil o deslocamento, não só literalmente, mas a capilaridade das ações culturais. Quem fala é porque torce para que as coisas não possam acontecer. A partir de abril, temos uma agenda de circulação com cada Estado encontrando os gestores estaduais e municipais. Pretendo passar pelo menos três dias em cada Estado para se ter uma radiografia, porque cada um é muito específico. O que queremos é criar esse diálogo sem terrorismo. Nós temos que atender a todos os sete Estados envolvidos com a Regional.



Uma das principais críticas em relação à gestão anterior do MinC foi a interrupção de um processo de diálogo com a sociedade civil. Como você pretende se relacionar com as classes artísticas e que ações pretende implantar para garantir essa interlocução?

Já chegamos a ter uma conversa tímida com o Fórum da Música de Pernambuco, haja vista que ainda estou chegando, tomando pé. A mobilização possibilita muito o diálogo, e estamos abertos para este diálogo. O grande diálogo nosso será com o Cultura Viva, diretamente com os grupos, com todas as linguagens da cultura. Estarei em Brasília nos dias 25, 26 e 27 de março, quando vai ser trabalhado todo esse redesenho do Cultura Viva com toda a sociedade civil. Se não formos provocados, vamos começar a provocar essa interlocução. A Regional só funciona se nós estabelecermos um diálogo com a sociedade civil organizada. Estamos abertos ao diálogo e às críticas, é preciso que isso aconteça. Mas é para conversar e encaminhar, não é só conversa. Gosto muito trabalhar com cumprimento de metas, prazos.

Não seria incorreto dizer que o Sistema Nacional de Cultura teve sua fagulha inicial em Pernambuco. Hoje o gestor do sistema é Roberto Peixe, ex-secretário de cultura do Recife, quando a cidade virou referência em gestão cultural. No entanto, Pernambuco é exatamente o único Estado do Nordeste que ainda não aderiu ao SNC. A sede da Regional é aqui e você já disse que o Sistema é prioridade do ministério. Já começaram as conversas com o governo estadual para a entrada de Pernambuco no SNC?

Ainda não, mas iremos fazer um apelo ao governador. Ele tem sensibilidade e tenho certeza que Pernambuco vai fazer sua adesão. Vamos conversar com o Conselho de cultura do Estado, que tem que mudar. Tenho certeza que o conselho vai conversar com o governador e ele será sensibilizado à adesão. O sistema não fechou, não é um edital, está aberto indefinidamente. O ministério respeita, são entes da federação, temos que dialogar para que se possa fazer a adesão. A gente torce para que seja para todos juntos, mas se o Estado percebe que ainda não é o tempo, vamos torcer para que esse tempo seja curto. Os artistas, produtores culturais e quem é ligado à cultura com certeza vão sensibilizar o governador. A própria sociedade civil vai também vai fazer sua parte e com certeza Pernambuco fará sua adesão. Gostaria muito que fosse agora, neste primeiro momento. E o governo vai perceber que todos os municípios estão fazendo sua adesão. Quem aderir até o dia 31 de março estará participando deste primeiro momento do Sistema Nacional de Cultural.

Que impacto você acha que terá o estabelecimento a contento do SNC no fazer cultural e na gestão de cultura do país?

Primeiro é que tornamos constitucionais os valores financeiros, fica estabelecido o orçamento da cultura. Hoje a cultura não tem seu orçamento próprio, a qualquer momento ele pode ser alterado. O gestor não poderá mexer mais nessa verba. Além disso, você tem todas as instâncias que estabelecerão o diálogo com a sociedade, como o fórum, o conselho, o fundo, o plano, todos elementos do sistema. Você passa a ter uma ação gestora plena na cultura.

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