A realidade da pandemia em imagens e relatos

Em depoimento ao LeiaJá, o fotojornalista Sidney Oliveira conta o que tem presenciado nas ruas de Belém durante a crise sanitária da covid-19 e fala sobre as histórias que registra

sab, 20/03/2021 - 18:47

O mundo inteiro virou de ponta-cabeça com a pandemia da covid-19. No Brasil, o número de mortes causadas pela doença se aproxima dos 300 mil e muitas pessoas continuam perdendo familiares e amigos diariamente há um ano. Nas ruas de Belém, sob lockdown, o jornalista e fotógrafo Sidney Oliveira tem acompanhado de perto o drama e a dor daqueles que estão vivendo essa dura realidade.

Sidney é carioca, mas mora em Belém há mais de 30 anos e conta que aos 10 anos de idade já fotografava em frente a uma igreja, no bairro onde morava, em São João de Meriti, no Rio de Janeiro. Ele conta que começou a trabalhar como motorista no jornal O Liberal, em 2000, mas já tinha o foco no fotojornalismo. Passados 15 anos, decidiu cursar jornalismo de fato. Hoje, Sidney diz que gosta de escrever, de contar as histórias da profissão e fala que deseja, cada vez mais, contribuir com a sociedade.

No ano passado, ainda que autorizado a trabalhar, Sidney saía de casa para coberturas jornalísticas. Ele conta que perdeu pessoas na família e que no Rio de Janeiro também tinha um parente em estado grave por causa da covid-19. 

“Esse ano eu pensei: vou sair pra fazer diferente, não pra fazer a foto pela foto. A gente diz que uma foto fala mais do que mil palavras, mas por que a gente não pode ir além dessas mil palavras, saber da historia da pessoa”, diz Sidney.

O jornalista diz que a grande mídia, no caso do lockdown, conversa com o empresário, principalmente pela questão econômica envolvida, e que isso o faz se questionar sobre o outro lado da história – o lado dos autônomos. “Mas e as pessoas autônomas, os empregados, o que eles pensam disso? O que eles estão sentindo? Quais são suas dores? Quais são as suas necessidades? Quais são as suas ansiedades? Eu resolvi, além de fazer a cobertura no geral, buscar o âmago, a alma, o sentimento. Não só aquele sentimento, aquela expressão na foto, o olhar da pessoa. Mas saber realmente o que ela está sentindo”, revela.

Sidney fotografa pessoas sendo atendidas, pessoas sendo socorridas. Procura, no meio do turbilhão, alguma imagem, alguma expressão, para saber, com todo o cuidado, o que a pessoa está sentindo e o que ela está pensando sobre a situação. Durante as rondas, deparou com pessoas e histórias que o marcaram. 

“Teve o seu Alves Costa, um senhor lá do Ver-o-Peso. Tem o seu Cláudio Santos que, à noite, eu encontrei de joelhos com os braços levantados em frente à Basílica de Nazaré e tem a história da Roseli Queiroz, que foi a última que eu fiz. Esses três foram os personagens com quem eu consegui conversar, botar a empatia. Roseli foi a que mais me marcou”, relata.

Roseli Queiroz, autônoma, 32 anos, estava em frente ao Hospital de Pronto-Socorro Municipal do Guamá quando Sidney a encontrou. O fotógrafo relata que começou a questionar o que Roseli poderia estar sentindo e pensando quando observou o semblante dela.

“Parecia que ela estava precisando de alguém para ouvir os seus sentimentos, as suas dores. Naquele momento, começou a falar que estava muito cansada, que há quatro dias ela não dormia e que o pai dela de 83 anos estava internado. Há uma semana ele estava com sintomas de covid-19. Ela estava muito frustrada pela questão do pai ter se recusado a tomar a vacina, por isso contraiu a covid-19 e estava internado”, relata Sidney.

O fotógrafo diz que pessoas humildes costumam estar de acordo com o lockdown e reclamam de quem está na rua, desafiando a covid-19. “A Roseli precisava de alguém pra ouvi-la. Eu conversei com ela, ouvi, eu sempre desejo melhoras, dou uma palavra de conforto e fico pensativo. As pessoas estão sofrendo, elas estão morrendo. Quando a gente vê uma foto, a gente pode ter uma ideia, mas quando você vai buscar, vai conversar com a pessoa, você vai além da foto, vai além daquilo que você está vendo, você vai pro profundo e vai buscar no âmago da pessoa. Eu tenho procurado fazer isso”, complementa.

Sidney afirma que procura fugir do trivial, que busca contar essas histórias de forma mais humanizada, sem romantizar a pandemia. Ele revela que os trabalhos são bem recebidos e que muitas pessoas enviam mensagens para ele, outras compartilham e também o estimulam a dar continuidade ao trabalho.

“Não é brincadeira, não é uma gripezinha, não é mimimi. Então é humanizar, não romantizar nem dar o estardalhaço do terror total, porque as pessoas estão aterrorizadas, e com razão. Eu procuro contar a história, os detalhes e outras coisas envolvidas”, diz.

Sidney cita o descaso nas ruas, a mistura da questão política com a insensatez das pessoas e conta que, na opinião dele, o lockdown deveria ser total. “Eu sei que as pessoas ficam: 'Ah, mas a economia...', mas como vai ter economia se as pessoas morrerem, se elas estiverem doentes? Lá atrás, se as tivessem feito um trabalho, se tivessem as vacinas, aí tudo bem. Mas agora não dá. Eu tenho 48 anos e não sei quando eu vou tomar essa vacina”, diz.

“Como a Roseli fala, as pessoas não devem desafiar a covid e o lockdown, e ela tem razão. Ontem (18), tinham pessoas na rua, sem máscara, sorrindo. Muita gente na rua. E tudo isso é muito triste. Parece que as pessoas se acostumaram com essa questão e a gente está passando por um dos piores momentos da pandemia. Mais de duas mil pessoas morrendo por dia, o sistema de saúde saturado, em colapso. Eu vejo as pessoas e parecem que elas perderam o senso, perderam a sensatez”.

Para acompanhar o trabalho de Sidney Oliveira, acesse o Instagram @sidneyoliveiraimagem. Na galeria, veja fotos do jornalista.

Por Isabella Cordeiro.

 

COMENTÁRIOS dos leitores