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Trazida ao Brasil no final do século 16, pelos colonizadores portugueses, uma tradição derivada do Auto do Presépio lusitano encontrou guarida em terras tupiniquins e logo se abrasileirou. Foi nas ruas brasileiras que esta cultura tornou-se o Pastoril e, subvertendo a si mesma, encontrou dois caminhos para estar entre todos os tipos de gente: o religioso e o profano. Hoje em dia, embora esteja um pouco relegada ao esquecimento, o pastoril se mantém resistente às intempéries do tempo e da modernidade e muitos são aqueles que trabalham pela sua manutenção e preservação.

Giselly Andrade é uma dessas pessoas. Ela que dá nome a um pastoril, vive este brinquedo popular desde sua adolescência. O grupo surgiu a partir do sonho da mãe de Giselly, Ana Farias, que sentindo falta dos tradicionais pastoris de sua adolescência decidiu colocar a filha para dançar. "Ela já não via pastoris na rua e decidiu criar um", conta Giselly. A menina, então com 13 anos, passou a sonhar junto com a mãe e com as demais 'pastorinhas' que se juntaram a elas. Passados 17 anos, o grupo segue contando a jornada das pastoras em direção ao local de nascimento do menino Jesus, mantendo viva a tradição secular de essência religiosa.

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Os esforços para manter a manifestação viva são muitos. "As crianças não conhecem tanto o brinquedo, como antigamente, quando as pessoas faziam a cultura popular independente da ajuda do governo", diz Giselly, relembrando um tempo em que as comunidades se juntavam, por iniciativa própria, para brincar o pastoril nas portas das casas. "Hoje em dia tem muita violência, você termina não conhecendo seu vizinho. Isso ajuda a não ter mais tanto quanto antigamente", diz. Mas, apesar das dificuldades, é o amor pela cultura popular que faz o trabalho continuar. "É uma coisa que mexe demais com a gente, quando você chega e pode continuar brincando, é emocionante".

É este amor que faz outro grupo se manter ativo, o Pastoril Nossa Senhora do Rosário, da paróquia do Pina. Composto por crianças e adolescentes, os brincantes são guiados pelos mais velhos, e, assim, dão continuidade ao folguedo. A coordenadora Joelza de Vasconcelos explica que a cada ensaio são ensinados os fundamentos do pastoril para os jovens. Ela fala da importância deste trabalho de manutenção do brinquedo: "A gente está preservando esta cultura juntos".

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“O que eu sei fazer é isso. Eu fico tentando ver se consigo ir à frente, mas, este ano, parece que estou chegando ao limite”. O lamento de Antônio Coutinho, de 82 anos, é bastantante sentido. Ele é o Velho Xaveco, que há três décadas se dedica à arte do pastoril profano. Ao lado de suas pastoras e munido de sua cobra, o Xaveco diverte a plateia com piadas, irreverência e músicas de duplo sentido.

Ele conta que, de tão polêmico, o pastoril profano chegou a ser proibido e perseguido em certa época: “Muitas vezes a polícia chegava para proibir os velhos com as pastoras, era uma coisa reprimida pela sociedade”. Hoje em dia, apesar de ser mais aceito, outros são os motivos que levam à escassez de grupos e apresentações. “Esses ritmos que apareceram dos anos 2000 pra cá enfraqueceram muito o pastoril, assim como outras manifestações. As novas gerações preferem essas grandes produções. A gente fica em segundo plano, porque não temos estrutura financeira para nos manter”. O Velho Xaveco lamenta, também, o esquecimento por parte do poder público: “Nesses últimos 10 anos, eu sempre fazia o Natal, no Pátio de São Pedro, no Sítio da Trindade, no Marco Zero,  esse ano ninguém nos contratou para nada, parece que nos esqueceram”.

O folguedo

O pastoril é uma manifestação cultural tipicamente natalina, encontrada na Paraíba, Maranhão, Rio Grande do Norte, Alagoas e, até no Rio de Janeiro, mas, com maior expressão, em Pernambuco. Ele conta a jornada das pastoras em direção ao local de nascimento do menino Jesus. Elas se dividem em dois cordões, o azul e o encarnado; uma pastora fica entre os dois, a Diana. Além delas, há camponesas, borboletas, anjos e ciganas que cantam e dançam à chegada do Nazareno.

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A brincadeira achou nas ruas campo fértil para se desenvolver, como explica a pesquisadora e etnomusicóloga, Dinara Pessoa: “O pastoril se desenvolveu nas casas de família, se expandiu pelas ruas, antigamente também era dançado como presépio, onde tinha a parte de dança, canto e de texto.” A estudiosa conta que houve época em que o folguedo era visto com maus olhos por parte da sociedade: “Nas cidades do interior existia um certo preconceito porque quem dançava o pastoril eram as pessoas de classe social simples”. Segundo ela, muitas pessoas eram proibidas de brincar por conta do status de suas família.

Sendo uma manifestação brincada na rua, o pastoril acabou criando laços com o circo e se tornou profano. Neste, há a figura do velho que atua como um palhaço, ao lado das pastoras: “Ele interage com o público,  solta piadas, às vezes picantes, que o público responde.”  No pastoril profano, as pastoras aparecem em número reduzido e as músicas cantam provocações e situações cômicas e de contexto mais adulto: “São duas manifestações da cultura popular completamente diferentes do ponto de vista do conteúdo.”, explica Dinara.

A pesquisadora fala, também, sobre o momento atual dos pastoris: “Eles estão desvalorizados diante dos poderes públicos, mas não estão arrefecendo, eles continuam em plena função”. Ela compartilha da opinião do Velho Xaveco, quando credita ao surgimento de inúmeros ritmos musicais novos o desinteresse das novas gerações ao brinquedo e lamenta a falta de valorização por parte do governo: “Os poderes públicos levam as coisas que vão dar mais credibilidade a eles, então eles não se interessam muito pelas manifestações da cultura popular porque eles também nem entendam, nem sabem o que significa isso para uma região, para o Estado. Eles pagam uma miséria por uma apresentação de um pastoril e pagam um dinheiro enorme por um cantor desses qualquer que tenha uma proposta completamente fora de uma melhoria cultural”.

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