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Badoque apontado para um sanhaço que voa pela última vez, João é só um garoto de 14 anos prestes a se arrepender. Quis a desatenção na pontaria que ele errasse justo aquela pedra. “Ele caiu vivo no chão, com uma das asas inutilizadas. Eu resolvi levar para casa e cuidar. Foi naquele momento que decidi nunca mais caçar”, conta, hoje adulto, João Batista da Silva, que ainda chora ao lembrar do hábito abandonado de matar passarinhos com os amigos. Depois de prestar serviços ao Parque Estadual Dois Irmãos, na Zona Norte do Recife, em diversas funções por três anos, o destino reservou ao agora tratador a irônica atribuição de cuidar de cerca de 60 aves do zoológico. “Recolho as fezes, troco água delas, ponho a comida e dou muito carinho”, brinca. 

Também é de João a missão de garantir que Antônia e Tomás, o casal de araras canindé do zoológico, aceitem bem seus exames e medicações, caso venham a ser necessárias, sem a utilização de uma abordagem violenta. O tratador entra no recinto com algumas sementes de girassol, saboroso lanche para a espécie, e reveza os chamados entre um e outro, que já atendem bem pelo nome. “Faço um treinamento com elas para estabelecer contato físico. Tomás é muito bravo, gosta muito de me beliscar. Antonia não, Antonia é mais tranquila, não é nega?”, acarinha a ave.

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"O amor que me mudou", diz João sobre o trabalho. (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens)

Dono de uma paciência monástica, João aceita bem seu carma. O ex-caçador tira por menos as inúmeras bicadas que recebe durante os treinamentos e prefere destacar os prazeres do trabalho. “É muito bom trabalhar com animais. Foi depois de vir para o zoológico que comecei a abrir a cabeça para a natureza”, comenta. Atencioso com os visitantes curiosos com os detalhes acerca de cada animal, João discorre sobre a idade e tamanho médio, bem como sobre curiosidades acerca do plantel da instituição. “Nossa águia chilena ainda tem alojada em uma das asas uma bala atirada por um caçador. Também tem um tucano que perdeu uma asa em cativeiro. Com esses aí, a gente precisa ter ainda mais cuidado. É muito triste, quando me lembro que matava aves, dá uma coisa ruim, remorso”, lamenta.

Na possibilidade de trabalhar com educação ambiental, ainda que indiretamente, o tratador “paga” pelos erros do passado com muita dedicação. “Eu aprendi o amor com as aves, que me fez mudar tudo. O amor que me mudou”, conclui. 

Interagir para educar

Treinamento de Sinistro atrai atenção dos visitantes. (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens) 

Se algumas de suas colegas estampam fotos dos namorados em suas redes sociais, a estudante de medicina veterinária Jéssica Mikaele prefere exibir suas amizades um tanto exóticas. Ela aparece “abraçada”, por exemplo, por Kevin, a salamanta do Parque Dois Irmãos, com quem garante ter desenvolvido grande afinidade. “A gente faz um condicionamento com ele para educação ambiental. Ele já aceita bem o toque”, comemora o progresso do trabalho. A ideia, contudo, não é viabilizar o simples registro de fotos do público com a cobra. “A gente busca utilizar algumas espécies que as pessoas temem para a sensibilização delas. Muitas serpentes são mortas porque as pessoas têm medo ou acham que são todas venenosas. Ainda há também quem jogue pedra nas corujas por acreditar que elas trazem ‘mau agouro’”, completa a médica veterinária Luciana Rameh. 

No zoológico há pouco mais de um ano, Jéssica também é responsável pelo treinamento do gavião asa de telha Sinistro. Paciente, a garota veste sua luva de couro na mão esquerda, onde sinistro é acomodado, se posiciona entre algumas árvores e faz o lançamento da ave. “Tomo distância enquanto ele voa e faço o chamado de volta com o apito ou o comando de ‘venha’”, explica Jéssica. 


 Condicionamento ocorre a partir da técnica da falcoaria. (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens)

Sinistro responde ao chamado, ávido pela recompensa por sua obediência. “Antes do treino, preparo a comida dele, retirando o trato gastrointestinal de camundongos abatidos. Cada vez que ele volta para a luva, recebe um pedacinho de carne”, comenta a tratadora. Poucos minutos de treino são o suficiente para atrair a atenção dos visitantes do zoológico, sobretudo das crianças, para as quais a ave em seu imponente voo parece ser mais interessante do que as dezenas de outras presas ao seu redor. “Quando Sinistro atrai as pessoas nos possibilidade de falar para elas sobre as espécie e sua importância. Juntos, contribuímos para que esse público cresça respeitando os animais”, comemora. 

De visitante a tratador

Das crianças de sua geração que frequentaram o zoológico, Adriano José Evelino foi a mais privilegiada. O Parque Dois Irmãos havia se tornado uma extensão de sua casa desde que seu tio assumiu a função de tratador do chimpanzé Sena, que o garoto poderia observar de perto durante seu condicionamento e alimentação. “Alguns anos depois, fui fazer um trabalho no açude e o diretor me chamou pela primeira vez para ser tratador, mas não aceitei. Só depois do meu casamento topei a vaga. O primeiro animal do qual me encarreguei foi Sena”, lembra. 

 

 Desde de criança, Adriano já acompanhava de perto o trabalho do tio, que era tratador. (Chico Peixoto/LeiaJáImagens)

Atualmente com sessenta anos de idade, o primata já era considerado idoso e passou a apresentar tosse constante. “Avisei ao médico, era tuberculose. Ele ficou isolado e cabia a mim dar a medicação. Iam me buscar em casa às uma da manhã para dar a medicação a Sena”, conta. O tratamento progrediu, Sena venceu a tuberculose e Adriano ganhou um amigo. “Acho que ele me teve como um companheiro mesmo. Quando eu e outros tratadores íamos tirar ele do recinto, só confiava em dar as costas para mim. Até hoje, tem muito ciúme de mim com outros animais”, completa.

Também foi de Adriano a responsabilidade de assumir o condicionamento do incontrolável Pota, hipopótamo que já conhecia dos tempos em que apenas o observava o trabalho do tio. “Ele não respondia a nenhum tratador até que o diretor me pediu ajudar. Pota já tinha arrancado quase todas as grades de proteção e jogado dentro do tanque. Medo nunca tive, porque se você respeita os limites do animal, ele respeita o seu”, comenta. Adriano entrou no recinto e retirou as grades da água. “Senti muito a perda dele quando morreu”, lamenta. 

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Vazio, o recinto do hipopótamo buscava um novo morador até que a administração do parque soube do hipopótamo recém-nascido no zoológico da cidade de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Sem estrutura para receber mais um filhote, a instituição cedeu o animal. Batizado de Balofo e apelidado de Pota, em homenagem ao antecessor, o hipopótamo chegou a Dois Irmãos com apenas dez meses de idade, o que reforçou as saudades da mãe. “Ele começou a interagir com a gente, ficamos perto dele. Antes, parte do público achava que a gente destratava os animais, porque os comandos eram no grito. Agora a gente usa um aparelho que emite um click”, coloca. 

Luciana Rameh comemora o bom funcionamento da tecnologia. “O som funciona junto à recompensa positiva, ou seja, dar ao animal que obedece uma coisa de que ele que gosta”, explica. Se o lanche é a ferramenta mais atrativa do tratador com a maioria dos animais, com Balofo, um curioso hobby também funciona bem. “Ele adora escovar os dentes, é um carinho, um prazer para ele. Então ele facilita o procedimento porque sabe que vai receber esse agrado”, acrescenta a veterinária. 

 Adriano costuma escovar os dentes do hipopótamo. (Chico Peixoto/LeiaJá Imagens)

Assim, um animal associado à violência em diversas culturas, gentilmente abre a boca sempre que Adriano se aproxima com a escovinha. “É muito gratificante, porque você acha que sabe de tudo, mas nunca sabe. Todo dia chegamos cedo, olhamos os recintos, colocamos água, comida e conferimos se as fezes estão normais, o animal se apega a você. Além disso, tenho algo que ninguém pode tirar de mim: o conhecimento que vou passar para os meus filhos e os visitantes”, afirma. 

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