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A crise migratória envolvendo haitianos se espalhou pelo México, com milhares de imigrantes retidos na fronteira sul, com a Guatemala, e outros lutando para sobreviver no norte, enquanto tentam entrar nos EUA. Nessa quinta-feira (30) o governo mexicano retomou os voos com deportados e enviou 70 pessoas de volta para o Haiti.

A Secretaria de Relações Exteriores (SRE) do México informou que o retorno de todos os imigrantes era "voluntário". O grupo decolou da cidade de Villahermosa, capital do Estado de Tabasco, para Porto Príncipe. As ações, segundo a SRE, fazem parte de acordos estabelecidos entre os dois países e tinham como objetivo "atender às necessidades dos haitianos no México".

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Marcelo Ebrard, chanceler mexicano, disse que muitos refugiados não podem pedir asilo no México porque já receberam esse status em outros países. "Temos de dar refúgio aos haitianos que não ganharam essa condição em outros países", afirmou o chanceler. "Sabemos que existem muitos, mas ainda não sabemos quantos são."

A decisão do governo mexicano foi tomada dias depois de os EUA desmontarem um acampamento provisório com 15 mil imigrantes haitianos na cidade de Del Río, no Texas. A maioria está sendo deportada em sete voos diários para o Haiti - 3,5 mil foram enviados de volta entre os dias 17 e 27 de setembro, segundo a Organização Internacional de Migrações (OIM), ligada à ONU.

Autoridades americanas confirmaram que a entrada de 12,4 mil haitianos foi liberada, para que eles possam acompanhar dentro dos EUA a tramitação do pedido de asilo. A crise migratória, mais visível no norte do México, também se desenrola no sul do país, na fronteira com a Guatemala. Na cidade de Tapachula, no Estado de Chiapas, o governo montou uma estrutura no Estádio Olímpico para receber 2 mil imigrantes.

Nesta quinta-feira, quatro agências da ONU fizeram um apelo para que governos de países da região ofereçam mecanismos de proteção ou acordos legais para defender o direito de milhares de imigrantes haitianos que estão em movimento pelo continente, principalmente com destino aos EUA.

A Agência da ONU para os Refugiados (Acnur), a Organização Internacional para Migrações (OIM), o Unicef e o Alto-Comissariado pediram que os países interrompam as deportações de haitianos "sem uma avaliação adequada". "A ONU e seus parceiros estão prestando assistência básica aos haitianos em vários pontos do trajeto e no Haiti. No entanto, é preciso fazer mais para lidar com suas vulnerabilidades", disseram as agências, em comunicado. (Com agências internacionais).

Um número indeterminado de imigrantes haitianos poderia se somar aos 12.400 que já foram liberados em território americano, onde cerca de 5 mil continuam detidos após terem cruzado a fronteira com o México em busca de asilo, disse neste domingo (26) o Secretário de Segurança Nacional dos Estados Unidos.

"O número pode ser maior", disse Alejandro Mayorkas à Fox News, em resposta a uma pergunta sobre a possível evolução da cifra de 12.400 migrantes que conseguiram sair dos acampamentos improvisados na fronteira entre o México e os Estados Unidos nos últimos dias e que terão que se apresentar perante um juiz de imigração para defender seu pedido de asilo.

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O secretário de Segurança Nacional deu entrevistas em várias das principais emissoras americanas buscando desativar a crise que assola o governo de Joe Biden, acusado tanto de ser permissivo quanto de ter imposto deportações desumanas aos haitianos.

Os 12.400 imigrantes, a grande maioria procedentes do Haiti, foram liberados nos Estados Unidos "sob condições", disse Mayorkas, ao assegurar que seu gabinete se baseava na lei vigente na hora de determinar se deportaria ou não os migrantes.

Além desta cifra, cerca de 2.000 pessoas foram deportadas de avião para o Haiti, 8.000 voltaram voluntariamente ao México e 5.000 foram transferidas para centros de acolhida.

São estes 5.000 migrantes atualmente em detenção administrativa os que poderiam engrossar nos próximos dias a cifra dos 12.400, segundo Alejandro Mayorkas.

Em outra entrevista concedida neste domingo à NBC, o ministro também criticou as normas vigentes sobre o tema migratório nos Estados Unidos. "Estamos trabalhando em um sistema completamente quebrado (...) Nunca ouvi ninguém dizer que as leis de imigração estejam bem estruturadas", disse.

No começo da semana, o ministro detalhou que um total de 30.000 migrantes, a maioria haitianos, chegaram desde 9 de setembro à pequena cidade fronteiriça de Del Río (Texas), onde viviam expostos ao calor e à miséria após cruzar o Río Grande partindo de Ciudad Acuña.

A afluência maciça de imigrantes e o tratamento que alguns receberam, sendo repudiados pela patrulha fronteiriça a cavalo enquanto cruzavam o rio, provocaram uma enxurrada de críticas contra o governo Biden.

Todos os migrantes haitianos que se concentravam dos dois lados da fronteira entre os Estados Unidos e o México abandonaram seus acampamentos improvisados na noite de sexta-feira, segundo o governo americano e os jornalistas da AFP em campo. Mas nos próximos dias e semanas poderiam chegar mais.

A Procuradoria do Panamá informou na sexta-feira (24) a descoberta de dez corpos, incluindo os de duas crianças, possivelmente migrantes haitianos que perderam a vida durante sua jornada a pé pela perigosa selva de Darien, na Colômbia, a caminho dos Estados Unidos.

"Eram provavelmente migrantes, porque durante as investigações um cidadão haitiano mencionou que no rio Tuquesa houve uma enchente devido às chuvas que arrastou nove pessoas", explicou o procurador de Darien, Julio Vergara.

"Presumimos que os cadáveres que encontramos estejam relacionados com o que foi contado por este migrante", apontou.

A ossada de uma décima pessoa também foi encontrada na mesma região.

Os corpos foram descobertos pelas autoridades nas proximidades dos rios Tuquesa e Canaán Membrillo, em uma região indígena Emberá Wounaán, no sul do Panamá. Nenhum tinha documentos.

Até o momento, este ano, 41 corpos de migrantes foram encontrados nas margens dos rios, ao longo do trajeto para cruzar a fronteira entre o Panamá e a Colômbia. As causas das mortes foram por afogamento e insolação, informou a Procuradoria.

Desde o início do mês, as autoridades panamenhas e colombianas validam o acesso diário controlado de no máximo 650 migrantes, em sua maioria haitianos, que fugiram de um país atingido na última década por uma severa crise econômica e política.

A maioria vem da América do Sul, para onde migraram há vários anos, mas não conseguiram legalizar sua permanência ou estavam desempregados pela pandemia de Covid-19.

Eles viajam pela América Central para chegar ao México e depois aos Estados Unidos, em busca de melhores condições de vida. Washington já avisou que não permitirá sua entrada e deportou centenas deles.

Atualmente, cerca de 19 mil migrantes estão em um porto no norte da Colômbia, à espera de embarcar em barcos que os levarão à fronteira com o Panamá.

Os viajantes devem, em seguida, cruzar o Golfo do Urabá, um trecho marítimo de cerca de 60 quilômetros.

Uma vez no Panamá, precisam cruzar a perigosa selva de Darien a pé, uma jornada que leva pelo menos cinco dias, expostos a estupros, assaltos e animais selvagens.

Entre janeiro e agosto, mais de 70 mil pessoas fizeram essa jornada.

A primeira cidade que eles encontram é a aldeia indígena de Bajo Chiquito. Em seguida, eles continuam para a Costa Rica.

O paraíso americano se desfaz para Yslande e outros refugiados haitianos em um acampamento na fronteira com Ciudad Acuña. Em seu lugar, surge uma opção mais realista: legalizar sua residência e conseguir um emprego no México para sobreviver.

"Não estou com pressa de entrar nos Estados Unidos. Se eu encontrar uma oportunidade, sim, mas se não puder, não vou arriscar cruzar", diz Yslande Saint Ange, de 29 anos, que chegou ao país acompanhada do marido e da filha.

"Se eu não conseguir, e eles [as autoridades mexicanas] puderem nos ajudar com os papéis para podermos procurar emprego, alugar um quarto, ficaremos tranquilos", acrescenta com determinação.

Espalhados pelo parque Braulio Fernández, grupos de homens e mulheres deliberam.

As reuniões acontecem depois que uma operação policial assustou-os pouco antes do amanhecer de quinta-feira (23), quando o parque foi repentinamente cercado por dezenas de viaturas e mais de 100 policiais.

"Levantei correndo e disse pro meu marido que se levantasse para correr, porque a migração ia levar a gente", lembra Saint Ange.

- Voltar ao "inferno" -

Logo depois, funcionários do Instituto Nacional de Migração (INM) apareceram para informá-los de que a ação visava a "protegê-los" e "convidá-los" a deixar o espaço e voltar para Tapachula, na outra ponta do México. Eles ficariam nesta localidade para aguardar a resposta às suas solicitações de refúgio.

Situada na fronteira com a Guatemala, essa cidade está mergulhada no caos, em meio à presença de dezenas de milhares de centro-americanos e de haitianos que aguardam há meses a resposta da Comissão Mexicana de Ajuda aos Refugiados (COMAR), tendo de se virar como podem para comer e subsistir.

A grande maioria dos haitianos presentes em Ciudad Acuña deixou Tapachula por conta das dificuldades.

"Se eu for para Tapachula, como vou fazer? (...) Saí do meu país há quatro anos. Não tenho minha irmã, não tenho meu pai, não tenho nada. Nada!", exclamou entre lágrimas Hollando Altidor, de 25 anos, a um funcionário do INM.

"Tapachula parece um inferno para nós", acrescenta um jovem sentado ao lado de Altidor que se recusa a revelar seu nome.

Depois de discutir veementemente com outros colegas sobre o que fazer nas próximas horas, Marc Desilhomme, um jovem alto de 29 anos, diz que não se importa em ficar no México para enviar algum apoio para sua filha que mora no Chile.

"Por enquanto, não tenho nada. Não tenho dinheiro e tenho uma menina para ajudar. Preciso de papéis para trabalhar, porque você sabe que a migração te incomoda se não tiver papéis", explica.

- Resignação -

Os imperativos são maiores para quem viaja com crianças. Etlover Doriscar, de 32 anos, pegou o filho e a esposa pela mão e fugiu com a roupa do corpo, acreditando que seria detido durante a operação policial.

"Você não pode brigar com a polícia, ou com a imigração. Eles sabem o que podem fazer conosco, e nós não podemos fazer nada", afirma, resignado.

Tentar entrar nos Estados Unidos e correr o risco de ser deportado está fora de questão para Doriscar. Nos últimos dias, ele viu centenas de compatriotas devolvidos do país vizinho para Porto Príncipe.

Ele também não planeja voltar ao Brasil, onde aguentou sete anos como motorista de Uber com uma renda que não dava para sustentar a família.

Agora recuperada do choque, Sonja Pierre, uma mulher corpulenta de 43 anos com uma voz poderosa, insiste em que as autoridades não devem forçá-los a voltar para Tapachula para concluírem suas solicitações.

"Que o COMAR faça uma visita aqui", diz Pierre, que chegou a Ciudad Acuña há uma semana. "Somos pobres, procuramos trabalho. Não estamos de férias", afirma.

Os EUA planejam despachar, a partir desta quinta-feira (23), sete voos diários para deportar em massa imigrantes haitianos que vêm cruzando a fronteira do México com o Texas. No domingo, 320 pessoas chegaram a Porto Príncipe em três voos. Ontem, foram seis. A crise só tem paralelo com o fluxo de refugiados de 1992, quando a Guarda Costeira americana realizou uma operação para barrar a entrada de haitianos que chegavam em balsas à Flórida.

Um funcionário do governo americano, que pediu para não ser identificado, ouvido pela agência Associated Press, disse que seriam quatro voos para Porto Príncipe e três para Cap-Haitien. As aeronaves sairão de San Antonio, mas as autoridades podem incluir decolagens de El Paso. Os EUA também costumam deportar um grande número de mexicanos ao longo do ano, mas sempre por terra e nunca tantos em tão pouco tempo.

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O desafio do governo americano é descobrir como lidar com o fluxo de haitianos pela fronteira mexicana. Na segunda-feira (20), 6 mil refugiados do Haiti foram removidos de um acampamento improvisado em Del Rio, no Texas, mas quase 10 mil ainda permanecem debaixo da ponte que leva a Ciudad Acuña, no México.

Ontem, o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, garantiu que os haitianos são bem-vindos. "O México não tem nenhum problema com eles, desde que respeitem as leis mexicanas", disse. Segundo Ebrard, 15% dos migrantes haitianos aceitam ficar como refugiados no México. Neste ano, cerca de 19 mil solicitaram asilo no país.

Desde o ano passado, após um acordo com o governo americano, o México aceita a entrada de deportados de Guatemala, Honduras e El Salvador - mas não do Haiti. Por isso, segundo Luis Angel Urraza, presidente da câmara de comércio de Ciudad Acuña, centenas de haitianos estavam sendo colocados em ônibus e despachados para Monterrey e Tapachula, de onde também seriam deportados em voos para o Haiti.

Claudio Bres, prefeito de Piedras Negras, a 100 quilômetros de Ciudad Acuña, disse que 70 ônibus lotados de haitianos passaram por sua cidade no fim de semana.

O empenho dos americanos para conter a entrada de haitianos vem provocando excessos. Na segunda-feira, vídeos e fotos de agentes de fronteira dos EUA chicoteando refugiados no Texas causou indignação em Washington. Ontem, o secretário de Segurança Interna, Alejandro Mayorkas, e o chefe da patrulha de fronteira, Raul Ortiz, defenderam a ação.

Mayorkas disse que os agentes seguravam rédeas longas, e não chicotes, para controlar seus cavalos. Ortiz afirmou que é difícil distinguir entre migrantes e contrabandistas que cruzam o Rio Grande. O Departamento de Segurança Interna, porém, prometeu uma investigação, além de ações disciplinares.

Ironicamente, as deportações em massa eram uma promessa de Donald Trump, que nunca chegou a ser concretizada. Coube a Joe Biden, que chegou à Casa branca vendendo uma imagem mais humanitária, usar o dispositivo legal para tentar resolver a crise migratória no Texas.

A maioria dos haitianos que chega aos EUA vem da América do Sul, para onde imigraram após o terremoto de 2010. Com a crise na região, muitos decidiram partir de novo, enfrentando uma arriscada viagem até os EUA. No campo improvisado de Del Rio, muitos dizem que não querem voltar ao Haiti. "O país está em crise política", disse Fabricio Jean, de 38 anos, que chegou ao Texas com a mulher e duas filhas. "No Haiti, não há segurança."

Alguns afirmaram que planejam deixar o Haiti novamente, o mais rápido possível. Outros planejam voltar para a América do Sul. Valeria Ternission, de 29 anos, contou que ela e o marido querem viajar com o filho de 4 anos de volta para o Chile, onde ela trabalhava como caixa de uma padaria. "Estou preocupada, especialmente com a criança", disse. "Eu não posso fazer nada aqui."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Milhares de haitianos que cruzaram o Rio Grande estão dormindo em acampamentos montados embaixo de uma ponte no sul do Texas, o retrato de uma nova emergência humanitária e desafio logístico para agentes migratórios americanos.

Autoridades de Del Rio, no Texas, estimam que mais de 10 mil migrantes se instalaram em um acampamento improvisado nos últimos dias, de onde aguardam resposta sobre seus pedidos de asilo. A maior parte deles é de haitianos vindos da América do Sul, incluindo o Brasil. Mais de 29 mil haitianos chegaram aos EUA nos últimos 11 meses, segundo dados oficiais, incluindo famílias de nacionalidades mistas, com crianças nascidas no Brasil, Chile e outros países vizinhos.

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O Estadão noticiou em agosto que a reabertura de algumas fronteiras na América do Sul, após o aumento no ritmo de vacinação contra a covid-19, fez com que imigrantes voltassem a tentar a travessia da América Central em direção aos EUA. O movimento fez com que, pela primeira vez em décadas, o maior fluxo não viesse de mexicanos e centro-americanos.

O prefeito de Del Rio, Bruno Lozano, descreveu as condições sob a ponte como "miseráveis", afirmando que se assemelhavam a uma favela, com pouco acesso a água potável, comida e apenas alguns banheiros químicos. "São 9 mil pessoas ansiosas e estressadas", disse Lozano.

Água potável, toalhas e outros itens básicos estão sendo distribuídos no local, de acordo com autoridades de fronteira, mas funcionários que trabalham na região afirmam que as condições sanitárias são precárias. Famílias com crianças pequenas estão recebendo prioridade de remoção da área da ponte.

Del Rio é uma cidade de 35 mil habitantes às margens do Rio Grande, a 240 km de San Antonio. O município, cercado por ranchos, arbustos espinhosos e enormes árvores de algaroba, tornou-se o centro do drama humanitário após virar rota de migrantes, que acreditam ser o caminho mais seguro para a travessia.

Deportações

A pressão cresce também para o governo de Joe Biden, que prometeu rever a política de imigrantes de Donald Trump. No caso específico do Haiti, Biden reduziu os voos de deportação após o assassinato do presidente haitiano, Jovenel Moise, em julho, e do terremoto de magnitude 7,2, em agosto, que matou mais de 2 mil pessoas. Ele também ampliou o status de proteção temporária para haitianos, o que reduz o risco de deportação.

"Vejo pessoas corajosas que, em vez de cair na armadilha do conformismo, optam por encontrar uma vida melhor", disse Wendy Guillaumetre, de 31 anos, que passou quatro anos no Chile antes de partir com a mulher e a filha de 3 anos para os EUA.

Para muitos, a rota passa pela região de Darién, a densa selva repleta de cobras e rios traiçoeiros que separa a Colômbia do Panamá, cujos caminhos enlameados são usados há muito tempo por contrabandistas. Apenas neste ano, as autoridades panamenhas dizem que o número de pessoas que cruzam a área atingiu níveis recordes, com 70 mil imigrantes se registrando em abrigos do país após fazer o perigoso trajeto.

A maioria das pessoas que cruzam a região de Darién é de haitianos que viviam no Brasil e no Chile e perderam os empregos com a pandemia. Com requisitos de visto quase impossíveis de serem cumpridos e pelo custo dos voos para os EUA, a única alternativa é fazer a jornada a pé.

O perigo, contudo, não vem apenas pela selva. Após chegarem ao Panamá, os imigrantes precisam percorrer quatro países da América Central, incluindo El Salvador e Honduras, conhecidos pela presença de grupos criminosos, até chegarem ao México, onde o trecho final da viagem começa.

Entre janeiro e agosto, cerca de 147 mil migrantes ilegais foram identificados no México - o triplo do que se viu em 2020 -, enquanto um número recorde de 212 mil imigrantes foram detidos somente em julho pelo Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA. (Com agências internacionais)

 

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Milhares de haitianos fizeram uma manifestação em Porto Príncipe no domingo para exigir a renúncia do presidente, Jovenel Moïse, acusado pelo Supremo Tribunal de Contas de estar no centro de um esquema de "apropriação indevida de fundos".

Precedidos por dezenas de manifestantes de motocicleta, os jovens participaram em grande número da marcha realizada em uma das principais ruas da capital do Haiti e convocada por partidos da oposição e organizações da sociedade civil.

Os manifestantes montaram pequenas barricadas de pneus queimados ao meio-dia, mas nenhum incidente foi relatado, apesar do forte policiamento.

"Exigimos que todos os dissipadores de dinheiro sejam julgados e punidos, seus bens confiscados e entregues ao Estado para projetos sérios de desenvolvimento, que o presidente renuncie e seja colocado à disposição da justiça", disse a ativista Vélina Charlier na marcha.

O governo federal prorrogou até maio o prazo para permanência de haitianos no País com status migratório provisório. O benefício foi autorizado para 43.781 imigrantes haitianos que entraram no Brasil pela fronteira com o Acre, desde 2010, e não se enquadram na condição de refugiados.

De acordo com o Ministério do Trabalho, 31.223 cidadãos concluíram seus registros permanentes (71,17%). O motivo do prazo é a dificuldade para obtenção do registro em algumas cidades. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Um grupo de vinte haitianos sobreviventes enterraram a filha de um dos seus colegas falecidos nesta segunda-feira (26), após o ônibus no qual viajavam se acidentar na fronteira México-EUA, e deixar 40 pessoas da mesma nacionalidade feridas.

O veículo que transportava os haitianos, que dispunham de vistos temporários, saiu à noite do dia 24 de dezembro da cidade de Tapachula, pertencente ao estado de Chiapas (México) rumo a Tijuana, fronteira americana. No entanto, na madrugada do dia 25 caiu da estrada no município Acayucan, em Veracruz, como informou em comunicado o Instituto Nacional de Migração.

A bebê de onze meses morreu no local do acidente, e outros 40 haitianos foram levados a hospitais próximos, incluindo a mãe da menor. O acidente decorreu do "péssimo estado das estradas de Veracruz, e do excesso de velocidade" com que o motorista dirigia, informou à AFP um funcionário da Polícia Rodoviária Federal que falou a respeito do acidente em anonimato.

Dos 40 feridos, apenas oito permanecem hospitalizados. Dentre essas pessoas que permanecem no hospital está a mãe da criança falecida, que não pode comparecer ao funeral da própria filha, comunicou à AFP Amadeo Retureta, diretor do Sistema para Resolução de Questões Familiares (DIF) de Acayucan.

O Instituto Nacional de Imigração (INM) disse que os haitianos possuem visto temporário para chegarem à Tijuana, local no qual irão se reunir com outros concidadãos que buscam ingressar nos Estados Unidos diante da crise social e econômica que atinge seu país de origem.

Desde maio de 2016 a chegada massiva de imigrantes haitianos tem preocupado os escritórios de imigração do estado da Califórnia (noroeste dos EUA), local onde se situa a cidade de Tijuana. As autoridades estimam haver milhares de haitianos vivendo no local no aguardo para entrar nos Estados Unidos.

Quatro haitianos foram baleados por um brasileiro após uma discussão em um bar no bairro Eldorado, na periferia de Cuiabá, na última sexta-feira, 18. Um dos feridos foi o dono do estabelecimento, Annous Saint-Fleur, haitiano que mora há quatro anos na cidade.

Até a manhã desta segunda-feira, 21, a polícia não havia localizado o autor dos disparos. O crime é investigado pela Polícia Civil. Além da suposta briga por causa da cerveja, será analisado se o crime tem caráter de xenofobia. Os baleados foram levados para o Pronto Socorro Municipal de Cuiabá (PSMC), em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), e liberados no sábado, 19.

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Segundo o boletim de ocorrência, o brasileiro teria ficado irritado porque um dos haitianos não quis lhe pagar uma cerveja. Os disparos atingiram outros três haitianos. Saint-Fleur recebeu dois tiros, um em cada perna, e outro haitiano foi atingido no rosto.

O bairro Eldorado é um dos seis bairros de Cuiabá com maior concentração de haitianos. Oficialmente, a capital mato-grossense tem uma comunidade haitiana de pouco mais de 2 mil pessoas. Eles começaram chegar em 2010, e o fluxo aumentou com a possibilidade de trabalho nas obras da Copa. Na cidade, eles costumam trabalhar em lan houses, bares e como vendedores ambulantes.

A Pastoral do Migrante acompanha o caso preocupada. Em setembro de 2015, o haitiano Pauleme Merzilus, de 28 anos, foi assassinado a facadas na porta de sua casa, na cidade de Rondonópolis, 218 quilômetros de Cuiabá. Na época, a ocorrência foi considerada latrocínio (roubo seguido de morte).

Além de Eldorado, os haitianos podem ser vistos em outros bairros, como Bela Vista, Pedregal, Sol Nascente e Carumbé, todos próximos à Pastoral do Migrante e com preços de aluguel mais baratos.

Um grupo com cerca de 40 haitianos vindos do Acre desembarcou no Terminal Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, na noite desta sexta-feira, 19. O ônibus que trouxe os imigrantes é o primeiro de um total de 23 veículos que a Prefeitura espera receber nos próximos 60 dias. Hoje, a capital tem um número aproximado de 8 mil haitianos que desde o ano passado têm vindo à São Paulo atrás de emprego e moradia.

O desembarque dos imigrantes ficou suspenso por um mês, mas com um acordo entre a gestão Fernando Haddad (PT) e o governador do Acre, Tião Viana (PT), em parceria com o Ministério da Justiça, vai possibilitar a chegada de mais de 900 haitianos nos próximos dois meses. As passagens de ônibus estão sendo pagas pelo governo Federal.

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O grupo que chegou no Terminal Barra Funda seguiu para abrigos, casa de familiares para a Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério, região central.

Um acordo entre o Ministério da Justiça, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Acre suspendeu na terça-feira, 19, o envio de haitianos a São Paulo. A decisão foi tomada após o prefeito Fernando Haddad (PT) acusar o governo federal e a administração petista daquele Estado de desrespeitar as regras acertadas em 2014 para o transporte e acolhimento de haitianos na cidade. A crítica de Haddad foi uma reação ao envio de uma só vez de 500 imigrantes de Rio Branco (AC) à capital.

"Não fomos informados com a devida antecedência. Vamos tentar nos preparar para fazer o melhor. Mas é difícil receber de última hora sem pelo menos 15 ou 20 dias de antecedência para nos preparar", disse o prefeito.

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De acordo com Haddad, até esse episódio, revelado pelo jornal Folha de S.Paulo, os protocolos entre os governos vinham sendo respeitados. Para Haddad, faltou comunicação do governo federal e do Acre com a Prefeitura.

Mais cedo, por meio de nota, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos informou que a Prefeitura busca "há mais de um ano formas de cooperar com os governos federal e do Acre para lidar com esse desafio". "Se os entes federados agissem de forma articulada e colaborativa, os resultados seriam muito mais eficazes no sentido de oferecer dignidade na acolhida dessas pessoas."

A nova crise entre as administrações petistas acontece após a paralisação, por dois meses, do envio de haitianos em ônibus fretados pelo governo do Acre para a capital. Sem aviso prévio, oito ônibus já foram enviados com 360 haitianos e outros três estão por vir, com mais 135. As viagens começaram no dia 14. Os primeiros ônibus chegaram no último domingo.

Dívida

A interrupção das viagens, em março, havia acontecido em razão de uma dívida de R$ 3 milhões do governo acreano com empresas de transporte - ainda não quitada. Ao todo, estão previstas 21 viagens de Rio Branco para cidades do Sul e do Sudeste. Os fretados levarão 945 haitianos e foram bancados pelo Ministério da Justiça.

Em relação a 2014, o ministério reduziu em 60% a verba para o transporte dos haitianos. O primeiro convênio firmado com o governo do Acre, em 2014, foi no valor de R$ 3,4 milhões. Neste ano, caiu para R$ 1,02 milhão. Em nota, o Ministério da Justiça informou que "concorda que as ações referentes a essa questão sejam coordenadas entre os vários órgãos do governo federal, Estados e Municípios". O ministério informou ainda que não sabia da retomada de envio de haitianos.

O principal ponto de apoio de haitianos em São Paulo, a Missão Paz, na região do Glicério, no centro, recebeu, em apenas um dia, o triplo de imigrantes do Acre. Entre domingo e segunda-feira, chegaram três ônibus com uma centena de haitianos. O número de mulheres chamou a atenção do padre Paolo Parise, diretor da entidade. "Na segunda à noite, chegaram de uma vez 20 mulheres. Normalmente chegam duas ou três. Achamos estranho. Pode ser que estejam vindo se juntar aos maridos."

Novidade

O secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão, disse que desconhece qualquer protocolo ou acordo feito com a Prefeitura de São Paulo. "Não há novidade para as autoridades de São Paulo ou dos Estados do Sul. Não houve paralisação das viagens. Mesmo sem os fretados, eles seguiam por conta própria. Mas, se esse é o questionamento, vamos informar às Secretarias de Direitos Humanos de São Paulo, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre quantos ônibus estão sendo mandados."

Mourão negou que o Acre esteja querendo se livrar dos imigrantes. Ele disse que é uma "crítica sem fundamento" e que o governo não está desembarcando haitianos em São Paulo "como se fossem qualquer coisa". Mesmo assim, desabafou: "Estamos exauridos. Há cinco anos estamos nessa luta". Cerca de 30 haitianos cruzam a fronteira do País diariamente, segundo ele.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O governo do Acre desativou o abrigo que recebia os imigrantes haitianos na pequena cidade de Brasileia, no interior do Estado. Agora, os grupos que saem nos aviões da FAB têm dois pontos de desembarque. Um em Cuiabá e outro na Grande São Paulo, na cidade de Guarulhos. "A Defesa Civil Nacional tem uns abrigos fixos", pontua o secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão. "De Guarulhos, muitos já têm destino certo para lugares do Sul ou mesmo de São Paulo."

Com o isolamento, os grupos de 40 a 50 pessoas que chegavam diariamente não tinham como sair para outras regiões do País, devido ao isolamento imposto pelo Rio Madeira, que deixou submersa a BR-364.

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Em Brasileia, o abrigo tinha condições de receber mais de 300 pessoas. Chegou a ter mais de duas mil. Hoje, há cerca de 750 haitianos no Acre, todos instalados no abrigo de Rio Branco.

A decisão do governo do Acre foi tomada na segunda feira. A partir de agora, os imigrantes que entrarem no Acre pela cidade de Assis Brasil, fronteira com Peru e Bolívia, já serão orientados a vir para Rio Branco.

Na capital, eles serão acolhidos e encaminhados para o Parque de Exposições Marechal Castelo Branco, local onde normalmente acontecem eventos populares e a feira agropecuária do Acre. O espaço abriga periodicamente famílias atingidas pelas cheias do Rio Acre e já tem infraestrutura adequada ao acolhimento.

Serão improvisados box de atendimento da Receita Federal, do Ministério do Trabalho e da Polícia Federal no Parque de Exposições. A lógica do governo é que nenhum imigrante fique mais do que três ou quatro dias abrigados em Rio Branco.

O Governo do Acre vai propor ao Governo Federal que a fronteira com o Peru seja fechada para o trânsito de haitianos. Há duas possibilidades de fechamento da fronteira: entre Assis Brasil (Acre) e Iñapari ou no Peru/Equador (entrada dos imigrantes na América do Sul). A alegação do secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Moruão, é que a atual situação é "insustentável" e que a "administração do caos chegou ao limite". Nas duas possibilidades, são exigidas soluções diplomáticas.

Atualmente, 1,2 mil haitianos estão abrigados em um espaço onde cabem, no máximo, 300 pessoas. "Em nome da dignidade dessas pessoas, é preciso que nós tomemos uma atitude urgente", adverte o secretário. "Da forma como está, aquilo ali é uma tragédia anunciada".

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O secretário de Justiça já informou ao governador do Acre, Tião Viana, sobre a situação e sugeriu o fechamento da fronteira como medida emergencial. Ainda não se sabe exatamente quando o Governo do Acre formalizará o pedido.

Desde 2010, a cidade de Brasileia recebe haitianos que chegam ao Brasil pelo Acre utilizando a Carretera Interoceânica. Há três anos o fluxo de imigrantes no mês de janeiro aumenta com a expectativa de que as empresas brasileiras reativem contratos nessa época do ano.

De um fluxo de 30 a 40 em meses como setembro ou outubro, o número aumenta para 70 ou 80 haitianos por dia. "Quando as empresas contratam, eles chegam e vão", diz Mourão. "Mas, se não contratam, eles chegam e ficam".

A situação piora a cada dia. "Se um colchão daqueles pegar fogo, vai ser uma tragédia", preocupa-se o secretário. "O Governo do Acre sempre tratou essas pessoas com dignidade, mas a administração do caos chegou ao limite".

A expectativa do Governo do Acre é que nesse próximo fim de semana 1,5 mil haitianos estejam alojados em Brasileia. Desde dezembro de 2010, quando chegou o primeiro grupo de haitianos, até hoje passaram pelo Acre 15 mil imigrantes. Já foram registradas brigas este ano entre haitianos e dominicanos no abrigo de Brasileia.

O governador do Acre, Tião Viana, esteve nesta quarta-feira com o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, para pedir apoio para lidar com a crise dos haitianos no seu Estado. "Sozinhos não temos como conduzir a questão da chegada dos imigrantes na nossa região", afirmou o governador.

A visita de Viana foi mais política, já que uma força-tarefa já está no Acre registrando e emitindo documentos para os imigrantes. Patriota explicou ao governador sobre a reunião, na última segunda-feira, 15, com os embaixadores do Peru, Bolívia, Equador e Haiti para tentar inibir o trabalho de coiotes que trazem os imigrantes para a região ilegalmente. Viana reconheceu que a situação melhorou e está mais tranquila depois da ação do governo federal.

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A principal medida para aliviar a situação, no entanto, deverá ser anunciada pelo governo nos próximos dias. Está em estudo a retirada do limite de vistos, hoje em 1,2 mil por ano, e também a possibilidade de que o documento seja concedido em postos de fronteira, e não apenas em Porto Príncipe, como é hoje. Existe ainda a possibilidade da emissão de um visto temporário para permitir que os imigrantes entrem no País e então regularizem a sua situação.

A decisão de criar vistos de trabalho específicos para os haitianos foi tomada em maio do ano passado, depois que mais de 2 mil imigrantes se acumulavam no Acre à espera de uma oportunidade de trabalho no Brasil. Para tentar desestimular as rotas comandadas por coiotes, o governo brasileiro determinou que o visto só seria concedido em Porto Príncipe.

No entanto, o caminho via Peru, Bolívia e Equador nunca foi totalmente fechado e um novo fluxo começou nos últimos meses. O governo brasileiro atribui o crescimento repentino ao anúncio, feito pelo Equador, de que iria dificultar a entrada dos haitianos no país, apesar de não exigir visto.

O governo brasileiro planeja retirar o limite de concessão de visto para os haitianos e passar a concedê-los em outros postos de fronteira e não só em Porto Príncipe, capital do Haiti, como é hoje. A decisão deve ser tomada até o final desta semana.

Uma das possibilidades é que os vistos possam ser concedidos em Brasileia, no Acre, uma das portas de entrada dos haitianos com grande fluxo. Segundo informações do Itamaraty, existe a possibilidade de acabar com o limite ou colocar um limite maior que o atual, de 1,2 mil vistos por ano. Seriam vistos de trabalho permanente ou vistos temporários que dariam ao imigrante um tempo para procurar emprego no país e, então, solicitar a troca do visto depois.

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Representantes do Itamaraty, ministérios do Trabalho, Justiça e outros órgãos do governo estão em Brasileia com uma força tarefa do governo federal, registrando e verificando que tipo de visto pode ser concedido aos haitianos.

Nesta quarta-feira, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, recebe o governador do Acre, Tião Vianna (PT), para uma reunião em Brasília.

O Itamaraty credita ao anúncio feito pelo Equador de que iria dificultar a entrada de haitianos pelas suas fronteiras o novo surto de imigrantes que tem chegado recentemente ao Acre. Em uma reunião convocada nesta segunda-feira pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, com os embaixadores do Haiti, Peru, Equador e Bolívia, foi pedido que os países intensifiquem a fiscalização nas suas fronteiras para impedir a ação dos chamados coiotes, os intermediários que trazem os haitianos até a fronteira com o Brasil.

O mesmo pedido foi feito a esses países em maio do ano passado, quando começou a crise da imigração haitiana. Até agora, apenas o Peru adotou o visto e dificultou a passagem. A rota, então, passou para Equador e Bolívia que, por razões ideológicas, preferem não adotar o visto.

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"E eu estou intensificando os contatos no nível diplomático para que nos coordenemos com os nossos vizinhos - hoje mesmo eu falei com o chanceler do Peru - com vistas a lidar com essa situação, que tem também uma dimensão de Direitos Humanos, de proteção dos direitos dos haitianos, na medida em que são intermediadores, os coiotes, que estão se beneficiando de uma situação de vulnerabilidade de seguimentos da população haitiana que procura melhores condições de vida", afirmou Patriota.

Uma força-tarefa do governo federal, incluindo um diplomata, está indo para o Acre tentar resolver o problema dos haitianos que já estão lá. O governo ainda começa a discutir, no entanto, como tentar, mais uma vez, interromper o fluxo.

Solidariedade

No ano passado, o governo federal tomou a decisão de conceder 1,2 mil vistos especiais de trabalho para haitianos que procurassem a embaixada em Porto Príncipe, a capital do país. Foi anunciado que quem chegasse sem o visto não seria admitido. A procura pelos caminhos via Amazônia, no entanto, nunca, cessou, e a política humanitária brasileira, que permite a concessão de visto a qualquer pessoa que entrar no país fugindo de uma crise, termina por permitir a entrada dos haitianos.

"Há um espírito solidário em relação ao Haiti de coordenação estreita com os países que têm servido de trânsito para esse fluxo migratório. Queremos encontrar o caminho de evitar esses aumentos repentinos e, digamos assim, introduzir previsibilidade no fluxo, na medida em que continue havendo um interesse pela população haitiana de emigrar para o Brasil", disse Patriota.

Uma reunião virtual, por e-mail, foi feita nesta segunda entre os membros do Conselho Nacional de Imigração para discutir propostas sobre o que fazer com mais essa crise. Entre as questões discutidas estão a possibilidade de aumentar a quantidade de vistos concedidos por ano e se é necessário reforçar a segurança nas fronteiras. Até o início da noite, no entanto, nada havia sido acertado.

O haitiano preso pela Polícia Rodoviária Federal na BR-317 (estrada que liga o Acre ao Pacífico), apontado como suposto coiote, foi liberado pela Polícia Federal. Coiote são os agenciadores que mediam o tráfico internacional de pessoas de forma ilegal.

O haitiano portava seis passaportes e disse que os documentos eram de familiares. O superintendente da Polícia Federal no Acre, Marcelo Sálvio Rezende Vieir, informou que os documentos "foram apreendidos e estão sendo objeto de investigação". O haitiano prestou depoimento na Polícia Federal de Epitaciolândia e foi liberado em seguida.

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O superintendente da PF não quis entrar em detalhes, mas não descartou a possibilidade de o Acre ter se transformado efetivamente em uma rota do tráfico internacional de pessoas. "É possível que também seja uma rota explorada para atividade ilegal", cogitou Vieir.

Após a assinatura do decreto de Emergência Social na terça-feira, o governador do Acre, Tião Viana, recebeu ligações na manhã desta quarta-feira do chefe de gabinete da Presidência de República, Giles Azevedo, do ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso, da secretária executiva do Ministério da Saúde, Maria Aparecida do Amaral, e do embaixador e secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Eduardo Santos. A Presidência de República solicitou uma reunião interministerial para que fossem debatidos a questão dos haitianos no Acre e o tráfico internacional de pessoas.

"Os ministros e secretários asseguraram que a questão será resolvida com a intensidade que o caso requer", afirmou o secretário de Estado de Comunicação, Leonildo Rosas. A assessoria de imprensa do governo do Acre, no entanto, não soube detalhar quais ações práticas serão aplicadas pelo governo federal. A embaixada do Senegal solicitou ao governo do Acre a relação dos cidadãos senegaleses que estão atualmente em território acreano.

Atualmente, uma média de 30 haitianos por dia chegam a Brasileia. A Polícia Federal estava conseguindo emitir apenas 10 CPF's por dia. O CPF é o documento prioritário para o atendimento ao cidadão em situação em refúgio. "A partir de amanhã, a Polícia Federal nos garantiu que vai emitir 100 documentos por dia", afirmou o representante da secretaria de Justiça e Direitos Humanos em Brasileia, Damião Borges. "A única certeza que eu tenho é que amanhã pelo menos mais 30 haitianos chegarão por aqui".

O governador do Acre, Tião Viana (PT), assinou nesta terça-feira decreto de emergência social para tentar amenizar as dificuldades relacionadas aos imigrantes haitianos no Estado. Tião Viana criticou a posição dos Ministérios das Relações Exteriores (MRE) e da Justiça. "Nós temos tido um apoio muito tímido do Ministério da Justiça e uma insensibilidade marcante por parte do Ministério das Relações Exteriores", afirmou.

"Por várias vezes, eu já tratei dessa questão com o (ex) ministro Gonzaga Patriota, coloquei a gravidade da situação", pontuou. O governador do Acre entende que a maneira mais eficaz de "limitar" o trânsito de haitianos é a exigência do visto pelo governo do Peru dos imigrantes que vêm do Equador. "Apontei o caminho de uma solução e até agora não percebi nenhum movimento nessa direção. O ministério tem se mostrado insensível à questão."

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Desde dezembro de 2010, quando chegou à fronteira o primeiro grupo de haitianos em fuga após a série de terremotos que assolou o país, 4,3 mil imigrantes passaram pelo limite do Acre com o Peru, passando pelo Equador. Hoje, estão em Brasileia e Epitaciolândia mais de 1,2 mil haitianos. Isso teve um custo contabilizado em mais de R$ 3 milhões ao governo do Acre. É mais de seis vezes o gasto que o governo federal teve com ajudas pontuais. Até hoje, a administração federal arcou com R$ 650 mil, pelas contas da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos.

Hoje, os 1,2 mil haitianos estão acomodados num local que deveria suportar apenas 200 pessoas. Custos com energia, aluguel e três alimentações diárias são bancados pelo governo do Estado, com ajuda pontual do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. "Se nós tivermos um momento de violência ali, que poder de polícia o governo do Estado tem para tratar essa questão?", perguntou o governador do Acre.

Rota

Desde o fim de 2012, o perfil dos imigrantes mudou. Agora, além dos haitianos, há etíopes, senegaleses, dominicanos, nigerianos e até indianos. O governo acreano suspeita que a região passou a ser rota do tráfico internacional de seres humanos. "É como se estivesse formada uma rota internacional migratória que se associa à crise social por que vive o povo do Haiti", sugeriu. "Isso traz uma incapacidade de resolver sozinho essa questão."

O secretário de Estado de Justiça e Direitos Humanos, Nilson Mourão, afirmou que a posição da administração estadual de tratar "de forma humanizada" os haitianos "acabou servindo de chamariz para outros imigrantes". "Já transcende uma questão humanitária, que é a ajuda aos haitianos, a partir do momento que se identifica outras rotas migratórias", afirmou o presidente do Tribunal de Justiça (TJ), Roberto Barros. Uma comissão de deputados estará em Brasília nesta terça-feira para tratar do assunto com os Ministérios da Justiça e das Relações Exteriores

O portão de ferro pintado na cor preta lacrava toda a abertura de luz que poderia sair da casa. Não era possível identificar se naquele aparente corredor estreito viviam pessoas. Após bater várias palmas, foi possível escutar, à distância, os passos que se aproximavam. Até então, a residência de três cômodos localizada no bairro Presidente Vargas, da cidade de Manaus, Estado do Amazonas, parecia inabitável.

Eis que Desir Withenie, uma jovem de 20 anos, aparece. Desconfiada, ela primeiro coloca o olho em um quadrado pequeno para verificar quem era, logo em seguida, abre a porta e com certo receio cumprimenta a todos com um discreto 'Salut' ('Olá' em francês). A mulher jovem de gestos contidos e voz baixa não estava segura ao iniciar a conversa, parecia estar retraída. Mas aos poucos ela sentiu segurança para falar.

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Desir havia saído do Haiti no dia 31 de dezembro de 2011, pela fronteira do país com a República Dominicana, com pouquíssimos pertences. Seguiu ao Panamá, onde tomou um outro voo e chegou na Amazônia peruana. De lá, resolveu ir à Tabatinga (cidade brasileira que faz fronteira com o Peru e se tornou o abrigo de muitos haitianos), tomou mais outro transporte, desta vez um barco, e aportou em Manaus. Com a esperança de conseguir um emprego e enviar dinheiro para a família, Desir deixou filho, mãe e pai para trás.

A história dela se repete entre dezenas de milhares de haitianos que deixam suas famílias em busca de oportunidades incertas aqui no Brasil. Conforme a Pastoral do Imigrante, entidade ligada à Igreja Católica, só no Amazonas existem, atualmente, cerca de quatro mil haitianos.

Entre essa estatística está Philcidr Mercure, um homem com jeito de sorriso e olhar tão cativante que constrangia pela simplicidade de se relacionar. Com um sorriso confiante, diferente de Deisir, não demonstrava insegurança quanto ao futuro que poderia ter no Brasil. Com a carteira de trabalho na mão, mostrava o visto de trabalho de dois anos concedido pelo governo brasileiro, muito embora não tenha conseguido emprego desde que chegou.

Philcidr vive na mesma casa que Desir. Uma residência que se tornou, dentro do bairro, uma espécie de refúgio para os haitianos, assim como outras casas pequenas que, no padrão de vida brasileiro, cabe apenas uma família, mas que excepcionalmente neste caso, tem acolhido 30, 50 e até 80 pessoas.

De acordo com o presidente do bairro, Walter Couto, todos da rua tentam ajudar aos haitianos e se sensibilizam com a situação deles. “Assim que eles chegaram, o padre da Igreja São Geraldo os ajudou e nós conseguimos essa casa para eles viverem”. Com o pouco que conseguem em alguns trabalhos, as 32 pessoas que vivem com Dseir e Philcidr dividem o preço do aluguel de 800 reais e sobrevivem com doações de religiosos. Recebem subsídios alimentares, mantimentos, colchonetes e até gás para cozinhar. Desir mostrava as doações de alimento que havia recebido do padre, que ela chamava de 'Pair' (pai, em francês), enquanto Philcidr saia do quarto para enxugar o rosto de suor e se apresentar "apresentável" à reportagem do LeiaJá.

A situação de ambos é um retrato da difícil realidade que eles vivem ao chegar ao Brasil. Sem falar o idioma e sem ter o apoio governamental, muitos continuam desempregados, com um agravante: em um país totalmente desconhecido. A condição dos imigrantes haitianos no norte do País preocupa entidades de direitos humanos, mesmo com a aprovação dos 1.200 vistos humanitários anuais e a regularização da situação daqueles que já estão por aqui. Ainda falta, segundo a ONG Conectas, acolher aqueles que continuam a chegar sem os vistosquestão que ainda não está muito clara.

Para a diretora da Conectas, Juana Kweitel, o visto humanitário foi uma medida interessante, mas a grande preocupação é com relação às pessoas que ainda estão sendo barradas ou deportadas ao chegarem aqui sem esse documento. “Ao ter esse visto, elas ficam sujeitas a abusos”. Mil haitianos já deixaram o Acre à procura de oportunidade em outros estados. A responsabilidade do Brasil se torna maior, uma vez que comanda a Missão de Paz e Estabilização das Nações Unidas que está no Haiti, desde 2004.

 

Direitos - O Comitê Nacional de Refugiados (Conare) negou o status de refugiado a esses imigrantes. De acordo com eles, o caso não se trata de um refúgio político, mas, sim, de vulnerabilidade econômica. Assim, o Ministério da Justiça concede apenas um protocolo de ajuda humanitária com validade por 90 dias, e que pode ser renovado, a depender do caso.

Na Constituição Brasileira, esse direito deve ser concedido ao cidadão que, devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país e buscar refúgio em outro (diz-se assumir uma postura "signatária"). Na prática, isso não tem sido aplicado e não se sabe precisar melhor em que estágio encontra-se a política migratória brasileira em consonância aos direitos humanos, incluindo a pronta ratificação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos dos Trabalhadores Migrantes e suas Famílias.

O resultado da falta de esclarecimento dessa política migratória, tanto para quem chega e é barrado na fronteira da Amazônia, quanto para quem possui o visto humanitário como Desir e Philcidr, é que muitos haitianos não conseguem se estabelecer ao chegarem ao Brasil e acabam vivendo em condições precárias, dependentes de ações voluntárias, de entidades ou da Igreja Católica.

A situação se agrava, pois, muitos dos haitianos que chegaram tem medo de receber ajuda, principalmente de alimentos já cozidos. “Eles jogam tudo no lixo, pois pensam que vão ser envenenados”, disse Walter. Em paralelo com o que vivem no Haiti, as pessoas que estão no Brasil vivem em condições de sobreviver melhor, mas não dignas. Estão no Brasil passando privações e sofrendo com a distância da família, e pouco se sabe qual o futuro desses imigrantes aqui no País, ou o que os esperam.

Ao final da conversa, Philcidr parou para sair nas fotos, estendeu a palma da mão e três tonalidades de cores selaram o encontro da equipe do LeiaJá com o entrevistado. Com um sorriso e o polegar positivo deu um 'tchau' com sotaque francês. Tímida, Desir o deixou e foi para outra área da casa. Já na saída, de frente ao portão, ela deu um tchau. A equipe se despediu e era inevitável não pensar na situação de toda aquela gente. A frase de Philcidr não saia da cabeça, afinal, era o sonho de quatro mil haitianos: “eu vim para trabalhar, mas não tem trabalho”.

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